Nos tempos de hoje…
Quarta, 29 de janeiro. Já passamos o primeiro mês de 2014.
No volante, um rapaz que não aparenta ter mais que 20 anos. Ele dirige um carro possante, branco, de uma marca com apenas três letras e com rodas gigantes, em especial quando comparadas às do veículo parado ao lado, que também espera o farol abrir. Os vidros [das quatro portas] estão abertos.
Um pouco à frente, na calçada, uma moça bem jovem, também aparentando estar na flor da idade e com um bebê no colo. A criança chora.
Eu já deveria ter atravessado, mas prefiro ficar na calçada assistindo o que acontece. Ao ouvir/ver o choro, sugiro quieto e calado que seja fome. Reflito.
Não reconheço o som que toca no possante, mas o volume alto, as batidas fortes e o apelo a palavras não muito agradáveis me fazem sugerir que o interprete seja da periferia da baixada santista, use correntes e pulseiras douradas [imitando ouro, talvez], relógio grande e tênis vergonhosamente chamativo.
Percebo o preconceito e me penitencio. Mas não volto atrás…
Com o olhar triste, ela se aproxima. Parece que vai pedir um trocado. A criança agora chora mais alto e mais forte, aparentando dor.
– “Será que a fome é capaz de gerar um desespero tão grande como esse?”, pergunto em silêncio, relevando minha ignorância sobre essa dor.
Ele fecha o vidro. Ignora a cena por completo. O farol abre e ele avança. A moça volta e senta no chão. Vejo uma lágrima escorrer.
Meu coração aperta. Fico meio atordoado, sem saber o que fazer. Na dúvida, choro em silêncio, por dentro. Fecho os olhos e oro. Clamo que os seus tempos não sejam os mesmos de hoje.
