"Cartas para Benício"

Um apanhado de letras, apenas. Que durem para sempre.

Adivugado

Segunda, dia 30. Véspera do “réveillon”. 2013, ainda.

Hoje ficamos juntos o dia todo. Mamãe foi trabalhar. Esse ano, ela ficou responsável pela “comunicação” da festa de réveillon da cidade.

Decidimos passear por algumas bandas, dentre elas as que abrigam o meu escritório. Você é só sorrisos.

Quando entramos, você logo corre pra minha sala, como se já soubesse onde fico e de onde desempenho meu trabalho.

Você brinca, rabisca, corre, pula, quebra uma coisa ou outra, fuça onde não deve fuçar e, do nada, questiona:

– “Papai, aqui que é o lugar dos ‘adivugados’?”

Respondo, mas sem dar muita bola:

– “Sim, filho, é aqui. Somos todos esse negócio aí”.

De volta às suas estripulias, você nem da bola para a resposta. Entretido com os papéis, volta a desenhar/rabiscar algumas folhas de rascunho.

Algum tempo depois, sinto você se aproximando de forma carinhosa. Você me olha, sorri e diz:

– “Papai, eu também quero ser adiguvado, tá?”

Eu choro, te abraço e sorrio. Feliz!

Feliz Ano Novo, filho.

Morangos

Sexta, 20 de dezembro. 2013.

Estamos em 2013, filho, bem perto do Natal. As ruas estão todas iluminadas e cheias de enfeites, prontas para recepcionar a festa do amor e da reflexão. Por onde andamos, o clima é de festa.

Ontem, no fim do dia, fomos comprar seus presentes. Um barco grande, cheio de apetrechos, piratas, um submarino, bonecos, enfim, do jeitinho que você pediu. O Papai Noel leu sua cartinha (rsrs).

Alguns minutos depois, estacionamos o carro em uma padaria perto de casa. Somos surpreendidos pelo sorriso doce e sem graça da Luana. Ela tem aproximadamente 04 anos e brinca feliz no colo da mãe, que há algum tempo não consegue levantar da cadeira de rodas.

Papo vai, papo vem, questionamos o que a menina espera ganhar de Natal:

– “Morangos”, diz ela.
– “Daqueles bem grandes”.

Com a voz, o olhar e o coração embargados, fugimos da conversa. A situação nos coloca em xeque. Ao mesmo tempo que temos a chance de realizar o que ela deseja, somos acometidos pela consciência de que apenas o “nada” está ao nosso alcance.

Entramos e papeamos. Mas nossa atenção estava lá fora, ainda, no olhar doce, meigo e sereno da menina. Minutos depois, passeamos pelo lugar caçando tudo o que pode ser oferecido como “presente”.

Já com alguns brinquedos no colo, ela se despede feliz. Suas mãos estão cheias de morangos.

Feliz Natal, filho.