"Cartas para Benício"

Um apanhado de letras, apenas. Que durem para sempre.

Mês: outubro, 2014

Parabéns para mim!

Eu não lembro muito dos meus aniversários “da infância”, filho. Seu avô era um cara um tanto, digamos assim, diferente, e não curtia muito essa história de festa, muita gente em casa etc. Mas nada me tira da memória o tamanho do meu desejo em fazer um regabofe “nessa data querida”.

Esse desejo era tão grande que, um dia, sem ninguém saber, eu mesmo preparei um festa. Enfrentei um único problema: esqueci de avisar a todos os meus convidados que ele era imaginária, presente apenas nos meus devaneios infantis [e que, graças a Deus, se estendem até hoje].

É isso mesmo. Eu esqueci de me dar conta que aquele embalo todo estava acontecendo só na minha imaginação, fazendo com que as coisas ficassem um pouco fora do eixo.

Eu devia ter uns 9 ou 10 anos. Tinha uma turma grande de amigos na escola que, à torta e à direita, faziam festas de aniversário. Por conta daquele jeitão [diferente] do meu pai eu nem sempre podia estar presente, mas sempre era convidado (que saudades eu tenho daquele “jeito”, filho).

Chamei uma infinidade de gente. “Encomendei” o bolo, “aluguei” a decoração, “comprei” refrigerante, salgados, bexiga e tudo mais. E antes de vir embora pra casa ainda me certifiquei de que os amigos mais chegados da época, como o Ruy e o André, por exemplo, não se esquecessem de, por volta das 20h00, estarem em casa para cantarmos o parabéns.

Quando cheguei em casa dei de cara com a realidade e encarei a rotina de sempre. Pedi e recebi as bênçãos dele e dela. Eu beijava suas mãos, como demonstração de respeito e carinho. Tirei o sapato e a meia e deitei alguns minutos no sofá antes de comer o sanduíche de pão, bife e ovo, que sustentavam o “porte atlético” que eu mantinha naquela época. Abstraí por completo as viagens imaginárias que embarquei durante o dia e segui.

Me esqueci, contudo, que nem todos os meus amigos tinham pais “com jeitão diferente”, e que ser convidado para ir em uma festa e não estar presente [por causa das determinações de “pais diferentes”] era comum só na minha vida, e não na de todos os que me cercavam.

Depois de uma bronca daquelas [as broncas do cara com jeitão “diferente” eram de arrasar o quarteirão], terminei a noite jogando futebol de botão e bebendo refrigerante em uma mesinha de centro que ficava na sala, com tampa de vidro e revestimento em couro sintético preto. Me lembro até do cheiro daquele móvel.

Como você deve imaginar, até passei um pouco de apuro. Mas fiz minha festinha! De presente, pedi que um dia tivesse muitos amigos psicanalistas para me explicarem as razões de tudo aquilo que se passava. Peço, hoje, que Contardo Calligaris, Sergio Zlotnic, Lucas Arantes e cia ltda. paguem a conta.

Obs.: Meu presente de hoje veio embrulhado em papel luminoso, prata. Era uma caneca com os dizeres: “Super Pai”. Você adorou me entregar. Te levamos logo cedo até a porta da escola. Hoje foi o seu primeiro passeio escolar. Curta bastante. E não se esqueça de viver todas as aventuras que a sua imaginação sugerir.

Com amor, Papai.

outubro de 1995 e maio de 2001.

Uma das coisas que mais me incomodam na vida se chama saudade. Seria tão bom se fosse possível viver sem ela! Acredito que você vai passar um bom tempo, ainda, sem conhecer essa traiçoeira inimiga. De toda forma, prepare-se, cara, pois um dia ela chega!

No começo ela sempre se apresenta de forma amena e ofertando uma dor pequena, apreciável e, algumas vezes, até mesmo inspiradora. Depois, filho, ela se revela de um jeito inimaginavelmente dolorido, capaz de arrebatar o mais duro e implacável dos corações.

Há quem se acostume a lidar com ela. São os que a consideram íntima, familiar. Mas o seu poder de redução e enfrentamento é tão grande que, de repente, quando você menos espera, ela te joga no chão, domina sua guarda e arranha sua alma sem dó. Sem piedade. Quando isso acontece, todos ficam sem saída, até mesmo aqueles com quem ela desenvolveu estreitos laços de “amizade”.

O passar dos dias permite que essas batalhas aconteçam de forma esporádica ou sazonal. Mas ela é fiel, cara, e nunca, nunca irá te abandonar.

Para você ter uma noção do seu poder de transformação e guerrilha, ela chega a ser capaz de desenhar na sua mente. É sério! Sem pedir licença, ela introduz na sua cabeça coisas como paisagens, momentos, rostos, cheiros. Consegue até fazer com que você – mesmo estando indiscutivelmente sentado à frente de um computador qualquer e escrevendo um devaneio ou outro – consiga se teletransportar para um antigo caminho que separava sua casa do supermercado, fazendo com que sua cabeça visite novamente a história e passeie por lugares onde o tempo eternizou alguns dos momentos mais felizes da sua existência.

Saudade, filho. Esse é o nome dela.

P.S.: Nós fomos apresentados duas vezes, filho, e eu as cultivo de forma carinhosa e fiel.

Essa tal amizade

Não sei quantas serão as experiências que levarei dessa vida, filho. Em que pese tenha vivido situações que contribuíram com minha evolução – uma delas foi o maravilhoso experimento de ser seu pai –, ainda não tenho a certeza necessária para poder considerar que, depois daqui, existe um novo caminho a percorrer.

Entretanto, minhas idas e vindas (até agora) foram suficientes para poder declarar (com absoluta convicção) que uma das coisas mais interessantes que vivenciei foi um negócio que convencionamos chamar de “amizade”.

Não me refiro àquela relação de proximidade entre duas ou mais pessoas, mantida, na esmagadora maioria dos casos, por uma singela convivência ou pelo simples (e fútil) interesse de “ambas as partes”. Aprendi que a isso se da o nome de “coleguismo”.

Refiro-me a um assunto um tanto quanto diferente, relacionado à estreita cumplicidade vivida por pessoas que simplesmente escolheram, sabe-se lá quando e onde, de forma próxima ou distante, compartilhar as experiências de outro negócio que, aqui entre nós, é conhecido como vida.

Ah, filho, como sou grato por ter passado por aqui e conquistado amigos.

O primeiro deles foi angariado quando eu ainda era pequeno (com 05 ou 06 anos de idade, se não me engano), lá na Benta Pereira, rua em que dei meus primeiros passos e onde hoje moram o Tio “Menas” (você ainda chama o Tio Deumas, meu irmão, de “Menas”) e a Tia Lili.

Ele veio pendurado em um caminhão de mudanças e misturado a um emaranhado de móveis velhos. Para minha alegria, me presenteou com a fidelidade que só os grandes escudeiros da grande ordem da amizade podem carregar.

Com o passar dos anos, a vida me brindou com outras peças raras, com as quais eu criei vínculos indissociáveis da minha própria existência.

Me deu a graça de compartilhar experiências das mais variadas com ursos (bem e mau humorados), anões (parecidos com esses das histórias que te conto antes de dormir), narigudos (e carecas e feios de doer), armênios (com excelentes dotes etílicos – caso do Samuka – e culinários – caso do Paulinho), chicos (que a pretexto de ser um bom exemplar do gênero masculino, chegou a dizer que “manda bem” até pendurado no lustre), marcolas (um dos melhores músicos que conhecerei em toda a minha vida) e outros tantos com quem honrosamente experimento a integridade e inteireza comuns a verdeiros irmãos.

Com cada um deles, filho, brinquei, dancei, briguei, defendi, fui defendido, bati, apanhei, aprendi, ensinei, sorri, chorei, menti, me perdi, enlouqueci, viajei (nos mais variados sentidos que a palavra oferta), trabalhei, ganhei e gastei dinheiro, enfim… vivi!

É por isso, então, que afirmo ser um “dever” seu empreender todos os esforços necessários para não perder as oportunidades que sua permanência por essas bandas oferecerá, para conquistar esses laços. Dedique uma parte significativa da sua vida a angariar esse bem tão precioso, e não meça empenho para cultivar (como bens preciosos) as amizades que ela lhe oferecer.

Elas fazem parte de você, filhão, e representam, por isso, parcelas consideráveis dessa tal evolução!

P.S.: Eu certamente esqueço de citar (nessa brincadeira com os apelidos) um ou outro amigo do peito e de fé. Não me preocupo. Esse esquecimento é facilmente preenchido pelo perdão comum a toda e qualquer boa e verdadeira amizade.