Essa tal amizade
Não sei quantas serão as experiências que levarei dessa vida, filho. Em que pese tenha vivido situações que contribuíram com minha evolução – uma delas foi o maravilhoso experimento de ser seu pai –, ainda não tenho a certeza necessária para poder considerar que, depois daqui, existe um novo caminho a percorrer.
Entretanto, minhas idas e vindas (até agora) foram suficientes para poder declarar (com absoluta convicção) que uma das coisas mais interessantes que vivenciei foi um negócio que convencionamos chamar de “amizade”.
Não me refiro àquela relação de proximidade entre duas ou mais pessoas, mantida, na esmagadora maioria dos casos, por uma singela convivência ou pelo simples (e fútil) interesse de “ambas as partes”. Aprendi que a isso se da o nome de “coleguismo”.
Refiro-me a um assunto um tanto quanto diferente, relacionado à estreita cumplicidade vivida por pessoas que simplesmente escolheram, sabe-se lá quando e onde, de forma próxima ou distante, compartilhar as experiências de outro negócio que, aqui entre nós, é conhecido como vida.
Ah, filho, como sou grato por ter passado por aqui e conquistado amigos.
O primeiro deles foi angariado quando eu ainda era pequeno (com 05 ou 06 anos de idade, se não me engano), lá na Benta Pereira, rua em que dei meus primeiros passos e onde hoje moram o Tio “Menas” (você ainda chama o Tio Deumas, meu irmão, de “Menas”) e a Tia Lili.
Ele veio pendurado em um caminhão de mudanças e misturado a um emaranhado de móveis velhos. Para minha alegria, me presenteou com a fidelidade que só os grandes escudeiros da grande ordem da amizade podem carregar.
Com o passar dos anos, a vida me brindou com outras peças raras, com as quais eu criei vínculos indissociáveis da minha própria existência.
Me deu a graça de compartilhar experiências das mais variadas com ursos (bem e mau humorados), anões (parecidos com esses das histórias que te conto antes de dormir), narigudos (e carecas e feios de doer), armênios (com excelentes dotes etílicos – caso do Samuka – e culinários – caso do Paulinho), chicos (que a pretexto de ser um bom exemplar do gênero masculino, chegou a dizer que “manda bem” até pendurado no lustre), marcolas (um dos melhores músicos que conhecerei em toda a minha vida) e outros tantos com quem honrosamente experimento a integridade e inteireza comuns a verdeiros irmãos.
Com cada um deles, filho, brinquei, dancei, briguei, defendi, fui defendido, bati, apanhei, aprendi, ensinei, sorri, chorei, menti, me perdi, enlouqueci, viajei (nos mais variados sentidos que a palavra oferta), trabalhei, ganhei e gastei dinheiro, enfim… vivi!
É por isso, então, que afirmo ser um “dever” seu empreender todos os esforços necessários para não perder as oportunidades que sua permanência por essas bandas oferecerá, para conquistar esses laços. Dedique uma parte significativa da sua vida a angariar esse bem tão precioso, e não meça empenho para cultivar (como bens preciosos) as amizades que ela lhe oferecer.
Elas fazem parte de você, filhão, e representam, por isso, parcelas consideráveis dessa tal evolução!
P.S.: Eu certamente esqueço de citar (nessa brincadeira com os apelidos) um ou outro amigo do peito e de fé. Não me preocupo. Esse esquecimento é facilmente preenchido pelo perdão comum a toda e qualquer boa e verdadeira amizade.