"Cartas para Benício"

Um apanhado de letras, apenas. Que durem para sempre.

Mês: março, 2015

Eu, você, a mamãe e nossa varanda (e panelas)

Pra você entender, filho, nosso país tem enfrentado uma crise ética e de gestão difícil e desanimadora. A economia vai mal, as esperanças e a crença do povo brasileiro está desaquecida, as expectativas de solução são todas para amanhã, nenhuma para hoje e, de quebra, a classe política enfrenta um descrédito sem precedentes.

A cada dia que passa surgem escândalos de corrupção e roubalheira. Parlamentares, empresários e funcionários públicos estão envolvidos em um emaranhado de denúncias vergonhosas que têm prejudicado o andamento da maior empresa brasileira (hoje), chamada Petrobrás.

Não bastasse esse clima, posturas e posições baseadas em discursos da metade do século passado têm dado azo para um cenário de confronto entre ideologias políticas diversas, esquecendo (ou deixando de lado) que o doente que precisa ser salvo é o país chamado Brasil.

Acabei de publicar as linhas a seguir em uma “rede social” (espero que quando ler esse texto ainda tenha a chance de saber o que é isso e de conhecer o “original” publicado) chamada Facebook. Elas traduzem um pouco do que vimos no dia a dia atual, revelam parte da opinião que tenho sobre o tema e registram um discurso claro e preciso pelo bem da nossa terra.

Com amor, Papai.

São Paulo, 17 de março de 2015.
Facebook (link: http://goo.gl/cbUVlg)

Não, eu não fui nas manifestações do último domingo, tampouco ousei riscar o fundo da Le Creuset que eu e minha esposa trouxemos de Miami.

Mas, cá entre nós, ando meio amolado com essa história de que quem resolve brindar no litoral americano, compra panela dita “de ponta” e mora em apartamento com varanda de cozinheiro não tem legitimidade para espernear contra aquilo que não concorda ou acha errado.

Aqui no meu apartamento com varanda gourmet e panela importada, sangue bom, o samba toca um pouco diferente!

Sou nascido e criado em Santana e, orgulhosamente, filho de um baiano de cabelo crespo e pele escura, que chegou na terra da garoa em 1939 para “morar” na Praça da Luz (para você que não sabe ou conhece, a Praça da Luz é aquela que fica bem pertinho do prédio onde um dia existiu o presídio Tiradentes, que foi “residência oficial” da presidenta quando ela brigava para que nós, moradores de varanda gourmet ou não, pudessemos travar a Paulista em uma tarde de sexta 13 ou na manhã de um domingo 15).

Minha mãe, filha de imigrantes italianos e portugueses, saiu de casa (grávida) aos 13, sem saber ler ou escrever, direito, sujeitando-se a enfrentar a vida ao lado de um sujeito 20 anos mais velho e pai de outros 07 filhos, filho de índia negra com o “sinhô” de fazenda cacaueira.

Instalados aqui, papai, mamãe e os 03 irmãos que foram fruto do relacionamento dela e daquele baiano que eu citei nas primeiras linhas foram morar no fundo da casa de um “dono de varanda gourmet” qualquer, enfrentando, dia após dia, as aventuras da vida.

Vivenciaram situações que você sequer imagina possíveis acontecer!

Vim ao mundo e desde sempre soube que em casa o chicote estralava diferente. Estudei a vida toda em escola pública, tendo conseguido aproveitar uma boa parte da época em que escola pública ensinava alguma coisa.

Na minha rua, eu era um dos únicos que não tinha direito a churrasco de domingo, festinha de aniversário, jantar de fim de ano e vídeo game no quarto. A grana era contada, companheiro, e extravasar com aventuras desse tipo nos sujeitaria a ter que fazer escolhas nada bem vindas.

Aos 14 me despedi do baiano de cabelo crespo e pele escura. Aos 18, daquela criança grávida que saiu de Araraquara para enfrentar as peripécias da vida (e de uma forma que boa parte dos que leem esse monte de letrinhas não teria colhão para enfrentar, tá?)

Trabalhei de office boy, motoboy, entregador, vendedor e os cambau a quatro. E na época que as coisas apertavam, corria fazer um bico disso ou daquilo para completar o orçamento (sozinho, sem papai ou mamãe, viu?!).

Cursei 05 anos de faculdade graças a bolsa de estudos e pensão. Ainda assim, não foram poucos os dias que, com a ajuda daquela que me escolheu para enfrentar as aventuras da vida, vendi o almoço para faturar a janta.

Fique sabendo, então, cara pálida, que subi uma infinidade de degraus entre o térreo e o 18º andar do apartamento (com varanda gourmet) que eu moro.

Estudei, me formei, pós graduei e hoje grito aos quatro cantos (com louvor) que sou protagonista da democracia, defendendo os direitos de moradores de varanda gourmet ou não (e, anota aí, materializando, no meu dia a dia, condutas éticas, prósperas e humanas)

Ao contrário do que disse um idiota um dia desses, as ações que pratico não engordam as estatísticas ou os índices de sonegação fiscal, oferta de trocado para guarda corrupto me livrar de multa ou coisa que o valha.

Não, eu não te acho soldado da situação ou da oposição, de direita ou de esquerda, patrulheiro vermelho ou azul, xiita ou coisa parecida. Peço, então, que me respeite e não me julgue sem saber o drama que eu carrego para não ser mais um preto fodido!

E antes de continuar sustentando uma ideia amparada por discursos fundamentados (ao que parece) na segunda metade do século passado, pare, pense e reflita. Você perceberá que, assim como você, sou exemplo de vitórias, trajetos e glórias.

Avante, Dilmão! E se tiver um pouquinho de atenção, perceberá que o eco das ruas, das varandas e das panelas pedem dinheiro no bolso, Deus no coração, família unida e champanhe pros irmãos.

Ah, e varanda gourmet!

Ele, o Papai.

Sempre gostei de crianças, filho. Sua dinda (esse é o apelido carinhoso que demos para a minha irmã mais nova, sua madrinha) foi minha primeira “cobaia”. Testei com ela todo meu amor, zelo, carinho e atenção que um serzinho precisa e merece ter. Sempre gostei do fato de cuidar de alguém. Não sei direito a razão, mas, com o tempo, percebi que isso me deixa mais feliz. Um lance de plenitude.

Na minha cabeça sempre pairou a ideia de trabalhar com crianças ou viver cercada por elas. O duro é que o destino sempre dita as regras um pouco diferente do que pensamos e um “sem número” de fatores fizeram com que eu me aventurasse no jornalismo.

Sou feliz e gosto do que faço, mas, me realizo, mesmo, sendo mãe e estando perto de falas estridentes e balbuciares que ainda não são palavras (famoso bebelês).

Conheci seu pai no auge dos meus 15 anos, filho, e desde então tive a certeza de que ele seria além do amor da minha vida. Ele é o meu parceiro, meu companheiro, meu amor.

Este ano vamos completar 14 anos juntos e o admiro cada dia mais. Seu pai, filho, é o melhor pai que eu conheço. Quando começamos ele era um pouco diferente e um tanto descrente de si, eu acho. Mas, juntos, superamos todas as adversidades. Ele ficou mais forte e amadureceu na medida certa. Costumo pensar que seu pai é uma pessoa iluminada, que todos querem por perto.

Quando você estiver maiorzinho ainda vai ser assim, mas quero dizer que ele acumula grandes amigos nessa vida e todos o querem por perto. Ele tem o dom de agregar. Acredite se quiser, ele agregou até o seu avô e sua avó, que viveram anos de crise e vira e mexe faz o mesmo comigo e a sua Tata, que insiste em encrencar comigo.

Confesso que as vezes dá uma raivinha de ter que “dividir” ele com tanta gente. Mas ao mesmo tempo penso que não permitir que ele ajude, oriente ou faça somente o papel de amigo/conselheiro com as pessoas representa um grande desperdício. Brinco que ele gosta de problema, de resolver pepinos. Mas, não! Seu pai gosta mesmo é de gente, filho, e de ver os que estão ao seu redor felizes. Nosso papel? Permitir e apoiá-lo!

Estamos em uma fase um tanto complicada. Você demonstra a todo momento uma admiração intocável por mim. Exclama várias vezes no dia seu amor e sua admiração. E eu, claro, me encho de alegria. Isso é, sim, demonstração de amor, mas, também, uma coisa chamada complexo de Édipo. É como se você quisesse que só eu e você habitássemos a Terra.

Acontece que temos o seu pai nessa jornada conosco e nós dois nada seríamos sem ele. Não tenho dúvidas que o amor que você sente (por ele) também é maior que o universo, mas, neste momento, você não consegue expressar isso de forma clara. E o seu pai que é um tanto ansioso sofre. Tenho lido sobre o assunto e sei que essa fase vai passar. Até lá, precisamos ter muita calma e paciência.

Seu pai é a pessoa com mais imaginação que conheço e você puxou isso dele. Quando vocês brincam juntos não tem pra ninguém! Não sobra um canto da casa arrumado. Nós amamos alimentar a sua imaginação fértil e deixar você crer que super heróis existem de verdade (eu, particularmente, planto todos os dias que o maior deles é o seu pai, o meu amor). E, quer saber de uma coisa? VOCÊ E EU ACREDITAMOS!

Depois que tive você minha vida ganhou cores. Penei um pouco no começo, pois as noites sem dormir eram enlouquecedoras. Mas superei. Superamos. Eu, num nível tão alto que penso em te dar um irmão ou irmã. Penso que você precisa saber as dores e as delícias que envolvem essa mudança.

Temos falado nesse assunto com você quase que diariamente e esta semana você bradou:

Mamãe, por que está demorando tanto para esse irmão ou irmã chegar?

Fiquei sem resposta. Seu pai anda meio reticente com a ideia. Não porque ele não queira mais um ser memorável em nossa casa. O problema é que ele pensa, filho, e pensa muito (e em tudo). A preocupação dele é não conseguir dar a você e seu irmão(a) a melhor educação, melhor assistência de saúde ou essas coisas que tem um custo bem alto ultimamente.

Mas nada disso faz muita diferença. E sabe por que? Porque vocês já vão ter o melhor dos melhores: o melhor pai e a melhor mãe das galáxias, além do amor mais puro e concreto que existe.

O resto, anjo, é só o resto!

Com amor, Mamãe.