Eu, você, a mamãe e nossa varanda (e panelas)

por dinovanoliveira

Pra você entender, filho, nosso país tem enfrentado uma crise ética e de gestão difícil e desanimadora. A economia vai mal, as esperanças e a crença do povo brasileiro está desaquecida, as expectativas de solução são todas para amanhã, nenhuma para hoje e, de quebra, a classe política enfrenta um descrédito sem precedentes.

A cada dia que passa surgem escândalos de corrupção e roubalheira. Parlamentares, empresários e funcionários públicos estão envolvidos em um emaranhado de denúncias vergonhosas que têm prejudicado o andamento da maior empresa brasileira (hoje), chamada Petrobrás.

Não bastasse esse clima, posturas e posições baseadas em discursos da metade do século passado têm dado azo para um cenário de confronto entre ideologias políticas diversas, esquecendo (ou deixando de lado) que o doente que precisa ser salvo é o país chamado Brasil.

Acabei de publicar as linhas a seguir em uma “rede social” (espero que quando ler esse texto ainda tenha a chance de saber o que é isso e de conhecer o “original” publicado) chamada Facebook. Elas traduzem um pouco do que vimos no dia a dia atual, revelam parte da opinião que tenho sobre o tema e registram um discurso claro e preciso pelo bem da nossa terra.

Com amor, Papai.

São Paulo, 17 de março de 2015.
Facebook (link: http://goo.gl/cbUVlg)

Não, eu não fui nas manifestações do último domingo, tampouco ousei riscar o fundo da Le Creuset que eu e minha esposa trouxemos de Miami.

Mas, cá entre nós, ando meio amolado com essa história de que quem resolve brindar no litoral americano, compra panela dita “de ponta” e mora em apartamento com varanda de cozinheiro não tem legitimidade para espernear contra aquilo que não concorda ou acha errado.

Aqui no meu apartamento com varanda gourmet e panela importada, sangue bom, o samba toca um pouco diferente!

Sou nascido e criado em Santana e, orgulhosamente, filho de um baiano de cabelo crespo e pele escura, que chegou na terra da garoa em 1939 para “morar” na Praça da Luz (para você que não sabe ou conhece, a Praça da Luz é aquela que fica bem pertinho do prédio onde um dia existiu o presídio Tiradentes, que foi “residência oficial” da presidenta quando ela brigava para que nós, moradores de varanda gourmet ou não, pudessemos travar a Paulista em uma tarde de sexta 13 ou na manhã de um domingo 15).

Minha mãe, filha de imigrantes italianos e portugueses, saiu de casa (grávida) aos 13, sem saber ler ou escrever, direito, sujeitando-se a enfrentar a vida ao lado de um sujeito 20 anos mais velho e pai de outros 07 filhos, filho de índia negra com o “sinhô” de fazenda cacaueira.

Instalados aqui, papai, mamãe e os 03 irmãos que foram fruto do relacionamento dela e daquele baiano que eu citei nas primeiras linhas foram morar no fundo da casa de um “dono de varanda gourmet” qualquer, enfrentando, dia após dia, as aventuras da vida.

Vivenciaram situações que você sequer imagina possíveis acontecer!

Vim ao mundo e desde sempre soube que em casa o chicote estralava diferente. Estudei a vida toda em escola pública, tendo conseguido aproveitar uma boa parte da época em que escola pública ensinava alguma coisa.

Na minha rua, eu era um dos únicos que não tinha direito a churrasco de domingo, festinha de aniversário, jantar de fim de ano e vídeo game no quarto. A grana era contada, companheiro, e extravasar com aventuras desse tipo nos sujeitaria a ter que fazer escolhas nada bem vindas.

Aos 14 me despedi do baiano de cabelo crespo e pele escura. Aos 18, daquela criança grávida que saiu de Araraquara para enfrentar as peripécias da vida (e de uma forma que boa parte dos que leem esse monte de letrinhas não teria colhão para enfrentar, tá?)

Trabalhei de office boy, motoboy, entregador, vendedor e os cambau a quatro. E na época que as coisas apertavam, corria fazer um bico disso ou daquilo para completar o orçamento (sozinho, sem papai ou mamãe, viu?!).

Cursei 05 anos de faculdade graças a bolsa de estudos e pensão. Ainda assim, não foram poucos os dias que, com a ajuda daquela que me escolheu para enfrentar as aventuras da vida, vendi o almoço para faturar a janta.

Fique sabendo, então, cara pálida, que subi uma infinidade de degraus entre o térreo e o 18º andar do apartamento (com varanda gourmet) que eu moro.

Estudei, me formei, pós graduei e hoje grito aos quatro cantos (com louvor) que sou protagonista da democracia, defendendo os direitos de moradores de varanda gourmet ou não (e, anota aí, materializando, no meu dia a dia, condutas éticas, prósperas e humanas)

Ao contrário do que disse um idiota um dia desses, as ações que pratico não engordam as estatísticas ou os índices de sonegação fiscal, oferta de trocado para guarda corrupto me livrar de multa ou coisa que o valha.

Não, eu não te acho soldado da situação ou da oposição, de direita ou de esquerda, patrulheiro vermelho ou azul, xiita ou coisa parecida. Peço, então, que me respeite e não me julgue sem saber o drama que eu carrego para não ser mais um preto fodido!

E antes de continuar sustentando uma ideia amparada por discursos fundamentados (ao que parece) na segunda metade do século passado, pare, pense e reflita. Você perceberá que, assim como você, sou exemplo de vitórias, trajetos e glórias.

Avante, Dilmão! E se tiver um pouquinho de atenção, perceberá que o eco das ruas, das varandas e das panelas pedem dinheiro no bolso, Deus no coração, família unida e champanhe pros irmãos.

Ah, e varanda gourmet!