Estamos grávidos!
Não consigo recordar qual é a primeira lembrança que tenho dos meus irmãos, filho. Ainda que me esforce, a mente não indica a imagem certa sobre a primeira vez que entendi a existência deles. Mas, ainda assim, me impressiona a nitidez com que o amor e os laços de carinho que nos cercam se refletem nos meus olhos.
Experimentamos entre nós, dia após dia, sentimentos que, sei lá, não teriam tanto significado caso eles não existissem e estivessem por perto, mesmo nas vezes que o “perto” é sinônimo de “longe”.
É como se não existisse distância suficiente para afastar o sabor gostoso da segurança e da certeza inabalável de que, “aqui” ou “lá”, existe alguém que nasceu para nadar o mar revolto e topar qualquer parada em seu nome.
Foi com eles, filho, que aprendi a me esconder ou defender da bruxa que ficava debaixo da cama. Foram eles, filho, que me ensinaram o caminho contrário do homem do saco, do bicho papão, do boi da cara preta e de outras coisas mais.
Com eles, vivi aventuras precoces e tardias. Andei de bicicleta, corri perdido no meio dos carros e registrei, pela primeira vez, o sabor que tem o mar.
Briguei, corri, fugi, dirigi, amei, odiei, bati e apanhei. Aprendi com eles o significado do ciúme, do amor de pai e do amor de mãe. Senti saudade, alegria, tristeza, medo e dor. Cabulei aula, também.
Aprendi a dirigir bicicleta, moto e carro. Nessa mesma ordem.
Foi com eles, filho, e com mais ninguém, que aprendi (e registrei) que, às vezes, precisamos nos defender de quem jamais achamos que fosse capaz de nos oferecer algum tipo de perigo.
Ao lado deles, fugi, me escondi e, dias depois, me achei e tive a firme certeza de que jamais deveria ter saído do lugar que estava antes.
Foi neles, e em mais ninguém, que pensei nas duas vezes que a vida se foi e voltou. E foi pra eles, somente pra eles, que tive coragem de fazer o pedido de desculpas mais sincero e doído de toda a minha vida, mesmo tendo a certeza de que, na opinião deles, esse pedido jamais deveria ter sido registrado.
E agora, filho, exatos quatro anos depois de você ter nascido, o papai e a mamãe oferecem o seu mais significativo tesouro, que é a oportunidade de, assim como nós, ter alguém para chamar de irmão (ou irmã).
Parabéns pra você, filho! Estamos grávidos.