"Cartas para Benício"

Um apanhado de letras, apenas. Que durem para sempre.

Mês: setembro, 2015

Aqui

Aqui, 16 de setembro.

Filho,

quase três meses se passaram desde o nosso último bate papo. Muita coisa aconteceu de lá para cá e só agora me sinto preparada para tocar no assunto com você (mesmo te vendo encarar toda essa história com a maior naturalidade).

Como disse o papai, precisamos adiar os planos de receber o seu/a sua parceiro/a de jornada. Papai do céu vai precisar que ele ou ela permaneça mais um tempinho ajudando nas coisas de lá da matriz e nossa tarefa acabou sendo esperar uma nova oportunidade.

Receber essa notícia não foi simples, filho, mas esse seu sorriso sempre iluminado e cheio de vida garantiu (com folga) que seguíssemos bem e acreditando que isso foi melhor.

Embora insistente, aos poucos a dor foi passando. Vez ou outra ela vinha sem avisar e me pegava de rebote para me ver chorar. Fiz planos, imaginei vocês dois juntos e materializei essa nova fase de alguma forma. As lágrimas não me pouparam, portanto. Mas o tempo passou, nós estamos bem e prontos para uma nova encomenda.

Papai também sentiu, mas evita o assunto para não reacender a chama triste que aos poucos se apaga. Ele segue firme no propósito de fazer a gente feliz a cada manhã (e ele é bom nisso!).

Bola pra frente e malas arrumadas para curtir nossas férias!

Com amor, Mamãe.

estamos aqui

Brasil, 14/09/15.

Querido filho, há dois meses não escrevemos. Embora seja sugestivo, nossa ausência não foi por falta de assunto. Aliás, mamãe e eu motivamos a falta em razão diametralmente oposta. Creditamos esse déficit no, digamos, excesso de acontecimentos.

Como você já sabe, recebemos a notícia de que você não seria mais promovido ao cargo de irmão mais velho. O Presidente do Conselho, também conhecido como papai do céu, decidiu que ainda não era a hora de preenchermos o cargo de caçula com outra pessoa e acabou adiando um pouco o nosso (meu, da mamãe e seu) plano de carreira.

Mas ele deixou claro que não tínhamos razão para preocupação e registrou, com veemência, até, que era para acreditarmos na sua irretorquível capacidade de gerir a nossa empresa e sem qualquer receio. As coisas se acertarão mais pra frente.

Somos bons executores das suas determinações e, sabe como é, né(?): não ousamos discordar das suas determinações na condição de líder (e não pergunte se essa postura é decorrente de pura convicção ou da herança sacerdotal à ideia de que desobediências desse tipo resultam em castigos ou coisas do tipo).

Dias atrás conheci o Samuel. Embora mais jovem que eu, aparenta carregar uma bagagem intelectual que me agrada. É por isso que confiei a ele o título de meu analista (grande coisa!).

Tenho compartilhado com ele uma parte dos assuntos que fervilham na minha cabeça e que, como você e a mamãe bem sabem (ainda que de forma não tão consciente), transformam-na em uma panela de pressão à beira da explosão.

Digo uma parte porque ainda dirijo nossa conversas meio que ressabiado, ostentando um sermão criterioso quanto a forma e o conteúdo. Alimento dúvidas sobre os limites que ele (ou será eu?) suportaria.

Em que pese não saiba quando estarei liberto dessa crendice, percebo que conforme me desvencilho dessas limitações, minha noção de liberdade fica maior. É como se a permissão para o meu juízo navegar pela imprevisibilidade me desacorrentasse da vontade de parecer lúcido e do incessante querer construir explicações racionais.

Quando conversamos e eu perco a vontade de parecer um ser brilhante ou inteligente, incorporo o que um amigo chama de desabar em um mergulho livre que opera uma lógica interna desconhecida e vigorosamente transformadora.

Feliz de poder compartilhar isso contigo e ansioso para sentarmos juntos e rirmos bastante dessas histórias.

Com amor, nós dois, papai e mamãe.