"Cartas para Benício"

Um apanhado de letras, apenas. Que durem para sempre.

Mês: março, 2016

Março, 2016.

Eu contigo na sua cama, tentando fazer com que você durma logo.
Você me olha e diz:

– Mamãe, você é a mãe mais maravilhosa que eu tenho no mundo.

– Meu amor. E você é o filho mais maravilhoso que eu tenho!

– Mamãe, eu quero aprender a ler logo, igual o Pedro da minha escola. Ele já lê tudo.

– Calma, meu filho, você vai aprender no momento certo e, quando tiver aprendendo, vamos treinar bastante.  Mas você tem que prestar atenção na aula da “Prô” Aline, pois é ela que vai te ensinar.

– Eu sei, mamãe, eu “apresto”. É que às vezes eu tenho sono.

– E porque você não dá uma dormidinha depois do almoço na escola? Você pode almoçar e descansar um pouquinho antes da aula.

– Não, mamãe, não posso. Depois do almoço eu já começo a estudar, tenho aula.

Pensei em como você já tem vida de adulto. Queria que fosse diferente. Que você pudesse ficar mais em casa com seus brinquedos e descansar quando seu corpo pedisse. Não falei nada. Mas fiquei quieta e acho q você percebeu que fiquei pensativa. Sagaz, soltou:

– Conta uma história pra mim?

– Claro, filho, qual história você quer ouvir?

– Da Chapeuzinho.

– Ok.

Começo a contar e na segunda frase seus olhinhos se fecham. Pesados, cansados. Levanto da cama, ajeito você, fecho a cortina e desligo a TV. Você acorda e me olha:

– Mamãe, onde você vai? Ainda não acabou a história. Deita aqui!

– Deito filho. Vou terminar de contar, então.

– Pode contar, pois eu não vou dormir, vou só dar uma cochilada, tá?

Acariciei seus cabelos e disse:

– E o caçador salvou a vovó e a chapeuzinho.
– Elas foram felizes para sempre!

Beijei sua testa e desejei uma noite de sonho com os anjos.
Sem dúvida, você já estava no meio deles.

Fevereiro, 2016

Cinco meses desde o nosso último contato. Tanta coisa aconteceu. Saímos de férias, foi incrível e você nos surpreendeu mais uma vez. Comportou-se como um rapazinho. Caminhou durante horas, foi educado e atencioso com a Tia Paula, que não mediu esforços para nos receber bem. É claro que em alguns momentos a impaciência tomava conta da sua cabecinha, além da fome e da vontade de fazer xixi, que surgia nos momentos mais inesperados. Mas você, meu filho, como em tantos outros momentos, nos deu uma aula de como exercer a sabedoria e a paciência.

Sua doçura e espontaneidade cativaram todos os novos amigos. Tia Isabel, Melissa, Tio Pedro, enfim, você marcou a vida deles nesses poucos dias que passamos em NY. Percebi que você já sabe o que é o limite e que é preciso de pouco, muito pouco para ser feliz. Você já entende quando não podemos comprar algo e não se aborrece por isso. Aceita a ideia com os olhos cabisbaixos e já direciona a atenção para outra coisa. Como se quisesse focar em algo novo para esquecer a frustração anterior.

Estávamos ansiosos, eu e papai, para lhe apresentar a imensa loja da Lego, localizada no Rockfeller Center. Sim, você gostou. Mas o encantamento e o brilho nos olhos vieram mesmo quando você mergulhou em uma piscina de milho. Sim, uma piscina de grãos de milhos secos. A querida Tia Isabel nos levou para conhecer uma “Farm”, que quer dizer fazenda em inglês. Você colheu abóboras, maçãs, brincou em um touro mecânico, andou de trator, subiu montanhas de feno e se sujou a valer submerso no milho. Ah, como isso te fez feliz. Claro, ficamos tomados por esse sentimento também.

Foram dias que nos divertimos a valer. Que venham outros, pois dias assim nunca são demais.

Na volta para a casa nos deparamos com uma série de acontecimentos. Eu e você pegamos uma gripe daquelas. Ficamos de cama, juntinhos. Foi como se um fosse o analgésico do outro. A vovó teve que vir para cuidar de nós e o papai se desdobrou também.

Na viagem a mamãe sentiu bastante sono e ao contrário do que poderia imaginar, pouco apetite também. Voltamos com a ideia de retomar aquele assunto da sua “promoção” a irmão mais velho. Mal sabíamos que retornamos já com a sua irmã a bordo.

No início de novembro mamãe desconfiou e fez um exame de farmácia. Sim, estávamos grávidos! Fomos tomados pela felicidade, mas dessa vez, decidimos aguardar as tais 12 semanas para ter a segurança de lhe dar essa notícia. Não sabíamos como lidar se caso papai do céu resolvesse novamente atrasar a sua elevação de cargo.

Mas como nem tudo sai como planejado, tivemos que abrir o jogo e anunciar a sua promoção. Você recebeu a notícia, mais uma vez, com muita felicidade. Seus tios, tias, primas, primos e vovó e vovô também. Não posso esquecer de citar os amigos. Eles são verdadeiros amigos, filho. Gente que podemos contar sempre e que fazem da nossa felicidade a deles também. Daí em diante foi só comemoração.

Hoje mamãe está com cinco meses e meio de gravidez e a Helena virá em junho para o nosso reino.  Estamos ansiosos e você ao que parece, vai se sair muito bem como irmão primogênito. A cada dia nos deixa de queixo caído com novas palavras, descobertas, medos e aflições. Ultimamente você tem tido mais medo do escuro e de se perder de mim e do papai. Meu filho, fique em paz. Não permitiremos que isso aconteça nunca.

Quero começar a relatar aqui as situações que passamos juntos. As perguntas que me faz, as ideias que defende e no que você já acredita. Acho que tudo isso é uma amostra do homem que começa a se formar aí dentro.

A caminho da casa dos tios Junior e tio Lorenzo:

– Papai, no seu aniversário quero te dar uma peruca.

Papai surpreso responde:

– Uma peruca filho?! Pq vc que você quer me dar isso?!

– Para vc ficar feliz papai, não deve ser legal não ter cabelo.

Só nós dois no carro. Indo buscar o papai para jantarmos no food truck do Tio Mussa:

– Mamãe, você sabia que “alelígenas” existem de verdade?

– É mesmo filho?! Eu acho que não. Só existem nas histórias e nos filmes.

– Existem sim. Eles são verdes, tem cabeça grande e vivem na galáxia. Quando os astronautas chegam, eles ficam com medo e se escondem nos buraquinhos da Lua.

– Nossa, é mesmo? Que bacana você saber isso. Quando encontrar a Tia Cléo conte para ela. Ela sabe muito sobre os alienígenas.

Sexta a noite, só eu e você na cama. Prontos para dormir:

– Mamãe, a noite é a hora do dia que mais amo.

– É mesmo filho, pq?

– Pq é quando ficamos juntinhos. É a hora mais romântica!

(Morri de amor por você mais um pouquinho essa noite).