Abaporu

Depois que você tem filhos sua vida nunca mais é a mesma. A chegada do(s) rebento(s) é capaz de transformar eventos simples (como chegar em casa, afrouxar a gravata, deitar no sofá e ver um filme, por exemplo) em raridades quase nunca praticáveis (ou será nunca, mesmo?).

Esqueça as noites de sono ininterrupto ou a possibilidade de aproveitar os quase 4 mt2 de cama sozinho ou curtindo a intimidade de casal. Ou a chance de escolher o lado mais aconchegante do colchão (ou do travesseiro), de cobrir-se integralmente com o edredom (sem deixar o pé ou um lado do corpo de fora) ou coisa que o valha. Situações como essas não acontecerão pelos 10 anos seguintes ao parto.

E não seja ingênuo(a) o suficiente para pensar que vez ou outra você terá a chance de aproveitar essas, digamos, regalias. Terão noites que você deitará na cama, o silêncio vai reinar, você vai ligar a TV ou abrir seu livro predileto mas, 05 ou 10 minutos depois (ou quando as prévias Democratas estiverem prestes a confirmar o casal Underwood para disputar o comando da Casa Branca) as ondas sonoras daquele choro agudo do seu(sua) filho(a) tomará conta do ambiente, invadindo cada milímetro do seu cérebro e impedindo que ele consiga se concentrar o suficiente para ignorar o ruído e esperar que a cria pegue no sono novamente.

E o mais interessante dessa história toda é que você vai acabar ficando viciado nisso! É verdade. Você vai experimentar a experiência de ser pai ou mãe (de um menino lindo e cafajeste), vai achar que a fábrica deve fechar, a normalidade (ou o mais próximo que você pode chegar dela) vai começar a aparecer novamente e, de repente, como em uma crise de abstinência, você vai começar a achar que alguma coisa está fora do lugar, que há um vazio na vida do casal, que você precisa de mais uma dose e, assim, do nada, um teste de farmácia mais caro que o Abaporu vai florescer com dois risquinhos avermelhados anunciando que aquilo que estava ficando no passado vai acontecer outra vez.

E dá-lhe a impossibilidade de dormir, o garoto cafajeste (e agora enciumado) correndo pra sua cama no meio da noite, você acordando para pegar a chupeta que caiu, pra trocar fralda, pra ver se está tudo certo com a cria que repousa etc. etc. etc.

É isso, a paternidade e a maternidade entorpecem. Elas te transformam em um ser dependente dessa reação química pai e mãe VS. filhos em uma intensidade tão grande que ninguém, absolutamente ninguém é capaz de te isentar. Não há clínica de recuperação que conserte o indigitado vício de chegar em casa e ser abraçado pelo mais velho ou de ganhar um sorriso acanhado do bebê mais novo (aquele, cujo resultado da gravidez veio em um aparelhinho fajuto e caro que só). Ou de sair pra trabalhar e, minutos depois, receber uma foto da mamãe com o primogênito fuçando no seu notebook, sob o argumento de que precisa ajudar o papai a concluir aquele trabalho que ele passou horas do dia anterior estudando, estudando, estudando e, enfim, escrevendo.

É o mais perto que se chega de Deus.