"Cartas para Benício"

Um apanhado de letras, apenas. Que durem para sempre.

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11 anos!

Não vou começar esse texto falando do tempo entre uma postagem e outra. Começo dizendo UAU, você está fazendo 11 anos!

Essa transição “criança vs. pré-adolescente” que você está entrando está tirando a gente do eixo. Menos pela necessidade de aprendermos com as questões que fazem parte desse pacote e mais pelo fato de vermos que você está crescendo, criando asas e se aprontando para voar. Esquecemos que essa parte também está na receita do “ter filhos”.

Lá atrás, em 2013, eu já tinha pensado e registrado isso. Quando você tinha 02 anos eu já tinha previsto que, nos tempos de hoje, a gente já não seria mais tão queridos assim, que você já não nos abraçaria com o calor e com o carinho daquela época e que não choraria mais no nosso colo pedindo para beijar um machucado seu.

E eu acho que é por isso que ultimamente as minhas sessões de terapia têm sido dedicadas a você. Durante uma hora das minhas semanas (às vezes duas ou três, porque eu não sou de ferro) eu paro pra escutar o que eu tenho a dizer sobre nós, sobre a nossa relação e sobre as projeções e transferências que [sem saber] eu jogo em você (você vai ainda ouvir falar mais sobre esse tal do inconsciente).

Fato é que nós todos (você, eu, a mamãe e a Nena) estamos vivendo um mundo de coisas novas. Daqui em diante, precisaremos nos acostumar com a ideia de que você está mais apropriado e empoderado da sua própria identidade. Que você está crescendo, abrindo as janelas da vida e encontrando as paisagens que marcarão a sua história.

Precisaremos nos habituar a entender que não seremos mais o centro da sua atenção. Que os amigos, as namoradas, as paixões e os desejos estarão alguns lugares à nossa frente. Que as nossas sessões de cócegas esparramados na cama ou no sofá ficarão pra depois. Assim como a nossa brincadeira de “walking dead” (que agora você odeia), as nossas sessões de cinema com pipoca e a “pacueira”. Faz parte!

Não sei quando você vai ler esse texto. Mas, independente do tempo e do lugar, saiba que ele não é uma mensagem melancólica, saudosa ou nostálgica. Aliás, ele é o contrário. É um texto libertador. Libertador porque ele coloca a gente na mesma estação.

Há 11 anos você invadiu o mundo e mudou a nossa forma de viver. Chorou praticamente todas as noites durante oito meses, fez a gente cambalear todas as vezes que ficou doente, mas, de quebra, escancarou os nossos corações. Trouxe o mundo da vida aos nossos pés.

Hoje, portanto, comemoramos o fato de a vida ser muito, mas muito mais colorida do que ela era antes. É clichê, mas vale o registro: o aniversário é seu e o presente é nosso. Sempre!

Valeu, cara. E parabéns pra você.

Abaporu

Depois que você tem filhos sua vida nunca mais é a mesma. A chegada do(s) rebento(s) é capaz de transformar eventos simples (como chegar em casa, afrouxar a gravata, deitar no sofá e ver um filme, por exemplo) em raridades quase nunca praticáveis (ou será nunca, mesmo?).

Esqueça as noites de sono ininterrupto ou a possibilidade de aproveitar os quase 4 mt2 de cama sozinho ou curtindo a intimidade de casal. Ou a chance de escolher o lado mais aconchegante do colchão (ou do travesseiro), de cobrir-se integralmente com o edredom (sem deixar o pé ou um lado do corpo de fora) ou coisa que o valha. Situações como essas não acontecerão pelos 10 anos seguintes ao parto.

E não seja ingênuo(a) o suficiente para pensar que vez ou outra você terá a chance de aproveitar essas, digamos, regalias. Terão noites que você deitará na cama, o silêncio vai reinar, você vai ligar a TV ou abrir seu livro predileto mas, 05 ou 10 minutos depois (ou quando as prévias Democratas estiverem prestes a confirmar o casal Underwood para disputar o comando da Casa Branca) as ondas sonoras daquele choro agudo do seu(sua) filho(a) tomará conta do ambiente, invadindo cada milímetro do seu cérebro e impedindo que ele consiga se concentrar o suficiente para ignorar o ruído e esperar que a cria pegue no sono novamente.

E o mais interessante dessa história toda é que você vai acabar ficando viciado nisso! É verdade. Você vai experimentar a experiência de ser pai ou mãe (de um menino lindo e cafajeste), vai achar que a fábrica deve fechar, a normalidade (ou o mais próximo que você pode chegar dela) vai começar a aparecer novamente e, de repente, como em uma crise de abstinência, você vai começar a achar que alguma coisa está fora do lugar, que há um vazio na vida do casal, que você precisa de mais uma dose e, assim, do nada, um teste de farmácia mais caro que o Abaporu vai florescer com dois risquinhos avermelhados anunciando que aquilo que estava ficando no passado vai acontecer outra vez.

E dá-lhe a impossibilidade de dormir, o garoto cafajeste (e agora enciumado) correndo pra sua cama no meio da noite, você acordando para pegar a chupeta que caiu, pra trocar fralda, pra ver se está tudo certo com a cria que repousa etc. etc. etc.

É isso, a paternidade e a maternidade entorpecem. Elas te transformam em um ser dependente dessa reação química pai e mãe VS. filhos em uma intensidade tão grande que ninguém, absolutamente ninguém é capaz de te isentar. Não há clínica de recuperação que conserte o indigitado vício de chegar em casa e ser abraçado pelo mais velho ou de ganhar um sorriso acanhado do bebê mais novo (aquele, cujo resultado da gravidez veio em um aparelhinho fajuto e caro que só). Ou de sair pra trabalhar e, minutos depois, receber uma foto da mamãe com o primogênito fuçando no seu notebook, sob o argumento de que precisa ajudar o papai a concluir aquele trabalho que ele passou horas do dia anterior estudando, estudando, estudando e, enfim, escrevendo.

É o mais perto que se chega de Deus.

Março, 2016.

Eu contigo na sua cama, tentando fazer com que você durma logo.
Você me olha e diz:

– Mamãe, você é a mãe mais maravilhosa que eu tenho no mundo.

– Meu amor. E você é o filho mais maravilhoso que eu tenho!

– Mamãe, eu quero aprender a ler logo, igual o Pedro da minha escola. Ele já lê tudo.

– Calma, meu filho, você vai aprender no momento certo e, quando tiver aprendendo, vamos treinar bastante.  Mas você tem que prestar atenção na aula da “Prô” Aline, pois é ela que vai te ensinar.

– Eu sei, mamãe, eu “apresto”. É que às vezes eu tenho sono.

– E porque você não dá uma dormidinha depois do almoço na escola? Você pode almoçar e descansar um pouquinho antes da aula.

– Não, mamãe, não posso. Depois do almoço eu já começo a estudar, tenho aula.

Pensei em como você já tem vida de adulto. Queria que fosse diferente. Que você pudesse ficar mais em casa com seus brinquedos e descansar quando seu corpo pedisse. Não falei nada. Mas fiquei quieta e acho q você percebeu que fiquei pensativa. Sagaz, soltou:

– Conta uma história pra mim?

– Claro, filho, qual história você quer ouvir?

– Da Chapeuzinho.

– Ok.

Começo a contar e na segunda frase seus olhinhos se fecham. Pesados, cansados. Levanto da cama, ajeito você, fecho a cortina e desligo a TV. Você acorda e me olha:

– Mamãe, onde você vai? Ainda não acabou a história. Deita aqui!

– Deito filho. Vou terminar de contar, então.

– Pode contar, pois eu não vou dormir, vou só dar uma cochilada, tá?

Acariciei seus cabelos e disse:

– E o caçador salvou a vovó e a chapeuzinho.
– Elas foram felizes para sempre!

Beijei sua testa e desejei uma noite de sonho com os anjos.
Sem dúvida, você já estava no meio deles.

Fevereiro, 2016

Cinco meses desde o nosso último contato. Tanta coisa aconteceu. Saímos de férias, foi incrível e você nos surpreendeu mais uma vez. Comportou-se como um rapazinho. Caminhou durante horas, foi educado e atencioso com a Tia Paula, que não mediu esforços para nos receber bem. É claro que em alguns momentos a impaciência tomava conta da sua cabecinha, além da fome e da vontade de fazer xixi, que surgia nos momentos mais inesperados. Mas você, meu filho, como em tantos outros momentos, nos deu uma aula de como exercer a sabedoria e a paciência.

Sua doçura e espontaneidade cativaram todos os novos amigos. Tia Isabel, Melissa, Tio Pedro, enfim, você marcou a vida deles nesses poucos dias que passamos em NY. Percebi que você já sabe o que é o limite e que é preciso de pouco, muito pouco para ser feliz. Você já entende quando não podemos comprar algo e não se aborrece por isso. Aceita a ideia com os olhos cabisbaixos e já direciona a atenção para outra coisa. Como se quisesse focar em algo novo para esquecer a frustração anterior.

Estávamos ansiosos, eu e papai, para lhe apresentar a imensa loja da Lego, localizada no Rockfeller Center. Sim, você gostou. Mas o encantamento e o brilho nos olhos vieram mesmo quando você mergulhou em uma piscina de milho. Sim, uma piscina de grãos de milhos secos. A querida Tia Isabel nos levou para conhecer uma “Farm”, que quer dizer fazenda em inglês. Você colheu abóboras, maçãs, brincou em um touro mecânico, andou de trator, subiu montanhas de feno e se sujou a valer submerso no milho. Ah, como isso te fez feliz. Claro, ficamos tomados por esse sentimento também.

Foram dias que nos divertimos a valer. Que venham outros, pois dias assim nunca são demais.

Na volta para a casa nos deparamos com uma série de acontecimentos. Eu e você pegamos uma gripe daquelas. Ficamos de cama, juntinhos. Foi como se um fosse o analgésico do outro. A vovó teve que vir para cuidar de nós e o papai se desdobrou também.

Na viagem a mamãe sentiu bastante sono e ao contrário do que poderia imaginar, pouco apetite também. Voltamos com a ideia de retomar aquele assunto da sua “promoção” a irmão mais velho. Mal sabíamos que retornamos já com a sua irmã a bordo.

No início de novembro mamãe desconfiou e fez um exame de farmácia. Sim, estávamos grávidos! Fomos tomados pela felicidade, mas dessa vez, decidimos aguardar as tais 12 semanas para ter a segurança de lhe dar essa notícia. Não sabíamos como lidar se caso papai do céu resolvesse novamente atrasar a sua elevação de cargo.

Mas como nem tudo sai como planejado, tivemos que abrir o jogo e anunciar a sua promoção. Você recebeu a notícia, mais uma vez, com muita felicidade. Seus tios, tias, primas, primos e vovó e vovô também. Não posso esquecer de citar os amigos. Eles são verdadeiros amigos, filho. Gente que podemos contar sempre e que fazem da nossa felicidade a deles também. Daí em diante foi só comemoração.

Hoje mamãe está com cinco meses e meio de gravidez e a Helena virá em junho para o nosso reino.  Estamos ansiosos e você ao que parece, vai se sair muito bem como irmão primogênito. A cada dia nos deixa de queixo caído com novas palavras, descobertas, medos e aflições. Ultimamente você tem tido mais medo do escuro e de se perder de mim e do papai. Meu filho, fique em paz. Não permitiremos que isso aconteça nunca.

Quero começar a relatar aqui as situações que passamos juntos. As perguntas que me faz, as ideias que defende e no que você já acredita. Acho que tudo isso é uma amostra do homem que começa a se formar aí dentro.

A caminho da casa dos tios Junior e tio Lorenzo:

– Papai, no seu aniversário quero te dar uma peruca.

Papai surpreso responde:

– Uma peruca filho?! Pq vc que você quer me dar isso?!

– Para vc ficar feliz papai, não deve ser legal não ter cabelo.

Só nós dois no carro. Indo buscar o papai para jantarmos no food truck do Tio Mussa:

– Mamãe, você sabia que “alelígenas” existem de verdade?

– É mesmo filho?! Eu acho que não. Só existem nas histórias e nos filmes.

– Existem sim. Eles são verdes, tem cabeça grande e vivem na galáxia. Quando os astronautas chegam, eles ficam com medo e se escondem nos buraquinhos da Lua.

– Nossa, é mesmo? Que bacana você saber isso. Quando encontrar a Tia Cléo conte para ela. Ela sabe muito sobre os alienígenas.

Sexta a noite, só eu e você na cama. Prontos para dormir:

– Mamãe, a noite é a hora do dia que mais amo.

– É mesmo filho, pq?

– Pq é quando ficamos juntinhos. É a hora mais romântica!

(Morri de amor por você mais um pouquinho essa noite).

Aqui

Aqui, 16 de setembro.

Filho,

quase três meses se passaram desde o nosso último bate papo. Muita coisa aconteceu de lá para cá e só agora me sinto preparada para tocar no assunto com você (mesmo te vendo encarar toda essa história com a maior naturalidade).

Como disse o papai, precisamos adiar os planos de receber o seu/a sua parceiro/a de jornada. Papai do céu vai precisar que ele ou ela permaneça mais um tempinho ajudando nas coisas de lá da matriz e nossa tarefa acabou sendo esperar uma nova oportunidade.

Receber essa notícia não foi simples, filho, mas esse seu sorriso sempre iluminado e cheio de vida garantiu (com folga) que seguíssemos bem e acreditando que isso foi melhor.

Embora insistente, aos poucos a dor foi passando. Vez ou outra ela vinha sem avisar e me pegava de rebote para me ver chorar. Fiz planos, imaginei vocês dois juntos e materializei essa nova fase de alguma forma. As lágrimas não me pouparam, portanto. Mas o tempo passou, nós estamos bem e prontos para uma nova encomenda.

Papai também sentiu, mas evita o assunto para não reacender a chama triste que aos poucos se apaga. Ele segue firme no propósito de fazer a gente feliz a cada manhã (e ele é bom nisso!).

Bola pra frente e malas arrumadas para curtir nossas férias!

Com amor, Mamãe.

estamos aqui

Brasil, 14/09/15.

Querido filho, há dois meses não escrevemos. Embora seja sugestivo, nossa ausência não foi por falta de assunto. Aliás, mamãe e eu motivamos a falta em razão diametralmente oposta. Creditamos esse déficit no, digamos, excesso de acontecimentos.

Como você já sabe, recebemos a notícia de que você não seria mais promovido ao cargo de irmão mais velho. O Presidente do Conselho, também conhecido como papai do céu, decidiu que ainda não era a hora de preenchermos o cargo de caçula com outra pessoa e acabou adiando um pouco o nosso (meu, da mamãe e seu) plano de carreira.

Mas ele deixou claro que não tínhamos razão para preocupação e registrou, com veemência, até, que era para acreditarmos na sua irretorquível capacidade de gerir a nossa empresa e sem qualquer receio. As coisas se acertarão mais pra frente.

Somos bons executores das suas determinações e, sabe como é, né(?): não ousamos discordar das suas determinações na condição de líder (e não pergunte se essa postura é decorrente de pura convicção ou da herança sacerdotal à ideia de que desobediências desse tipo resultam em castigos ou coisas do tipo).

Dias atrás conheci o Samuel. Embora mais jovem que eu, aparenta carregar uma bagagem intelectual que me agrada. É por isso que confiei a ele o título de meu analista (grande coisa!).

Tenho compartilhado com ele uma parte dos assuntos que fervilham na minha cabeça e que, como você e a mamãe bem sabem (ainda que de forma não tão consciente), transformam-na em uma panela de pressão à beira da explosão.

Digo uma parte porque ainda dirijo nossa conversas meio que ressabiado, ostentando um sermão criterioso quanto a forma e o conteúdo. Alimento dúvidas sobre os limites que ele (ou será eu?) suportaria.

Em que pese não saiba quando estarei liberto dessa crendice, percebo que conforme me desvencilho dessas limitações, minha noção de liberdade fica maior. É como se a permissão para o meu juízo navegar pela imprevisibilidade me desacorrentasse da vontade de parecer lúcido e do incessante querer construir explicações racionais.

Quando conversamos e eu perco a vontade de parecer um ser brilhante ou inteligente, incorporo o que um amigo chama de desabar em um mergulho livre que opera uma lógica interna desconhecida e vigorosamente transformadora.

Feliz de poder compartilhar isso contigo e ansioso para sentarmos juntos e rirmos bastante dessas histórias.

Com amor, nós dois, papai e mamãe.

São Paulo, 29 de maio de 2015

Benício, meu amor, hoje é um grande dia. Eu, você, o papai e mais um bando de gente que temos por perto (e olha que não é pouca gente!) tivemos a confirmação de uma grande notícia: você terá um(a) irmão(a)! Quanta felicidade!

Você vinha nos pedindo essa companhia há tempos e agora ela está aqui, pertinho de se tornar realidade. Estamos todos muito felizes e com a cabeça cheia de planos para você e para o(a) seu(sua) parceiro(a) de jornada. Ter irmãos é uma dádiva, meu filho, e a mamãe queria muito que você sentisse isso! Não consigo imaginar minha vida sem as suas tias, minhas irmãs. A felicidade, portanto, é geral.

Hoje também é uma data especial para o papai e seus outros tios, irmãos dele. Com a vinda do(a) novo(a) integrante do nosso time, conseguimos virar uma página importante na vida da nossa família. Vovô Dumas e vovó Cleunice estão olhando por nós. Hoje é dia de festa aqui e no céu!

Sabe, filho, o papai e a mamãe se esforçam para que você seja um homem de bem, feliz e sonhador. Acho que estamos no caminho certo. Você é um garoto adorável e que todos gostam e querem por perto. Como sempre digo: a gente dá asas à sua imaginação e conseguimos enxergar o quanto isso é mágico!

Vamos fazer o mesmo com mais esse anjo que está vindo para nós, pois quem não sonha não realiza. Tenho certeza que você e seu irmão(a) serão realizadores. Peço a Deus que mantenha vocês dois sempre unidos.

Eu, papai, vovó, vovô, seus tios, tias, primos, primas e muitos amigos que conseguimos reunir ao longo da vida, estamos ansiosos para ver vocês dois juntos.

Então, meu amor, vamos cruzar os dedos e receber de braços abertos esse bebê lindo que a mamãe está esperando. Vocês são os meus tesouros.

Com amor,

Mamãe.

Estamos grávidos!

Não consigo recordar qual é a primeira lembrança que tenho dos meus irmãos, filho. Ainda que me esforce, a mente não indica a imagem certa sobre a primeira vez que entendi a existência deles. Mas, ainda assim, me impressiona a nitidez com que o amor e os laços de carinho que nos cercam se refletem nos meus olhos.

Experimentamos entre nós, dia após dia, sentimentos que, sei lá, não teriam tanto significado caso eles não existissem e estivessem por perto, mesmo nas vezes que o “perto” é sinônimo de “longe”.

É como se não existisse distância suficiente para afastar o sabor gostoso da segurança e da certeza inabalável de que, “aqui” ou “lá”, existe alguém que nasceu para nadar o mar revolto e topar qualquer parada em seu nome.

Foi com eles, filho, que aprendi a me esconder ou defender da bruxa que ficava debaixo da cama. Foram eles, filho, que me ensinaram o caminho contrário do homem do saco, do bicho papão, do boi da cara preta e de outras coisas mais.

Com eles, vivi aventuras precoces e tardias. Andei de bicicleta, corri perdido no meio dos carros e registrei, pela primeira vez, o sabor que tem o mar.

Briguei, corri, fugi, dirigi, amei, odiei, bati e apanhei. Aprendi com eles o significado do ciúme, do amor de pai e do amor de mãe. Senti saudade, alegria, tristeza, medo e dor. Cabulei aula, também.

Aprendi a dirigir bicicleta, moto e carro. Nessa mesma ordem.

Foi com eles, filho, e com mais ninguém, que aprendi (e registrei) que, às vezes, precisamos nos defender de quem jamais achamos que fosse capaz de nos oferecer algum tipo de perigo.

Ao lado deles, fugi, me escondi e, dias depois, me achei e tive a firme certeza de que jamais deveria ter saído do lugar que estava antes.

Foi neles, e em mais ninguém, que pensei nas duas vezes que a vida se foi e voltou. E foi pra eles, somente pra eles, que tive coragem de fazer o pedido de desculpas mais sincero e doído de toda a minha vida, mesmo tendo a certeza de que, na opinião deles, esse pedido jamais deveria ter sido registrado.

E agora, filho, exatos quatro anos depois de você ter nascido, o papai e a mamãe oferecem o seu mais significativo tesouro, que é a oportunidade de, assim como nós, ter alguém para chamar de irmão (ou irmã).

Parabéns pra você, filho! Estamos grávidos.

Eu, você, a mamãe e nossa varanda (e panelas)

Pra você entender, filho, nosso país tem enfrentado uma crise ética e de gestão difícil e desanimadora. A economia vai mal, as esperanças e a crença do povo brasileiro está desaquecida, as expectativas de solução são todas para amanhã, nenhuma para hoje e, de quebra, a classe política enfrenta um descrédito sem precedentes.

A cada dia que passa surgem escândalos de corrupção e roubalheira. Parlamentares, empresários e funcionários públicos estão envolvidos em um emaranhado de denúncias vergonhosas que têm prejudicado o andamento da maior empresa brasileira (hoje), chamada Petrobrás.

Não bastasse esse clima, posturas e posições baseadas em discursos da metade do século passado têm dado azo para um cenário de confronto entre ideologias políticas diversas, esquecendo (ou deixando de lado) que o doente que precisa ser salvo é o país chamado Brasil.

Acabei de publicar as linhas a seguir em uma “rede social” (espero que quando ler esse texto ainda tenha a chance de saber o que é isso e de conhecer o “original” publicado) chamada Facebook. Elas traduzem um pouco do que vimos no dia a dia atual, revelam parte da opinião que tenho sobre o tema e registram um discurso claro e preciso pelo bem da nossa terra.

Com amor, Papai.

São Paulo, 17 de março de 2015.
Facebook (link: http://goo.gl/cbUVlg)

Não, eu não fui nas manifestações do último domingo, tampouco ousei riscar o fundo da Le Creuset que eu e minha esposa trouxemos de Miami.

Mas, cá entre nós, ando meio amolado com essa história de que quem resolve brindar no litoral americano, compra panela dita “de ponta” e mora em apartamento com varanda de cozinheiro não tem legitimidade para espernear contra aquilo que não concorda ou acha errado.

Aqui no meu apartamento com varanda gourmet e panela importada, sangue bom, o samba toca um pouco diferente!

Sou nascido e criado em Santana e, orgulhosamente, filho de um baiano de cabelo crespo e pele escura, que chegou na terra da garoa em 1939 para “morar” na Praça da Luz (para você que não sabe ou conhece, a Praça da Luz é aquela que fica bem pertinho do prédio onde um dia existiu o presídio Tiradentes, que foi “residência oficial” da presidenta quando ela brigava para que nós, moradores de varanda gourmet ou não, pudessemos travar a Paulista em uma tarde de sexta 13 ou na manhã de um domingo 15).

Minha mãe, filha de imigrantes italianos e portugueses, saiu de casa (grávida) aos 13, sem saber ler ou escrever, direito, sujeitando-se a enfrentar a vida ao lado de um sujeito 20 anos mais velho e pai de outros 07 filhos, filho de índia negra com o “sinhô” de fazenda cacaueira.

Instalados aqui, papai, mamãe e os 03 irmãos que foram fruto do relacionamento dela e daquele baiano que eu citei nas primeiras linhas foram morar no fundo da casa de um “dono de varanda gourmet” qualquer, enfrentando, dia após dia, as aventuras da vida.

Vivenciaram situações que você sequer imagina possíveis acontecer!

Vim ao mundo e desde sempre soube que em casa o chicote estralava diferente. Estudei a vida toda em escola pública, tendo conseguido aproveitar uma boa parte da época em que escola pública ensinava alguma coisa.

Na minha rua, eu era um dos únicos que não tinha direito a churrasco de domingo, festinha de aniversário, jantar de fim de ano e vídeo game no quarto. A grana era contada, companheiro, e extravasar com aventuras desse tipo nos sujeitaria a ter que fazer escolhas nada bem vindas.

Aos 14 me despedi do baiano de cabelo crespo e pele escura. Aos 18, daquela criança grávida que saiu de Araraquara para enfrentar as peripécias da vida (e de uma forma que boa parte dos que leem esse monte de letrinhas não teria colhão para enfrentar, tá?)

Trabalhei de office boy, motoboy, entregador, vendedor e os cambau a quatro. E na época que as coisas apertavam, corria fazer um bico disso ou daquilo para completar o orçamento (sozinho, sem papai ou mamãe, viu?!).

Cursei 05 anos de faculdade graças a bolsa de estudos e pensão. Ainda assim, não foram poucos os dias que, com a ajuda daquela que me escolheu para enfrentar as aventuras da vida, vendi o almoço para faturar a janta.

Fique sabendo, então, cara pálida, que subi uma infinidade de degraus entre o térreo e o 18º andar do apartamento (com varanda gourmet) que eu moro.

Estudei, me formei, pós graduei e hoje grito aos quatro cantos (com louvor) que sou protagonista da democracia, defendendo os direitos de moradores de varanda gourmet ou não (e, anota aí, materializando, no meu dia a dia, condutas éticas, prósperas e humanas)

Ao contrário do que disse um idiota um dia desses, as ações que pratico não engordam as estatísticas ou os índices de sonegação fiscal, oferta de trocado para guarda corrupto me livrar de multa ou coisa que o valha.

Não, eu não te acho soldado da situação ou da oposição, de direita ou de esquerda, patrulheiro vermelho ou azul, xiita ou coisa parecida. Peço, então, que me respeite e não me julgue sem saber o drama que eu carrego para não ser mais um preto fodido!

E antes de continuar sustentando uma ideia amparada por discursos fundamentados (ao que parece) na segunda metade do século passado, pare, pense e reflita. Você perceberá que, assim como você, sou exemplo de vitórias, trajetos e glórias.

Avante, Dilmão! E se tiver um pouquinho de atenção, perceberá que o eco das ruas, das varandas e das panelas pedem dinheiro no bolso, Deus no coração, família unida e champanhe pros irmãos.

Ah, e varanda gourmet!

Ele, o Papai.

Sempre gostei de crianças, filho. Sua dinda (esse é o apelido carinhoso que demos para a minha irmã mais nova, sua madrinha) foi minha primeira “cobaia”. Testei com ela todo meu amor, zelo, carinho e atenção que um serzinho precisa e merece ter. Sempre gostei do fato de cuidar de alguém. Não sei direito a razão, mas, com o tempo, percebi que isso me deixa mais feliz. Um lance de plenitude.

Na minha cabeça sempre pairou a ideia de trabalhar com crianças ou viver cercada por elas. O duro é que o destino sempre dita as regras um pouco diferente do que pensamos e um “sem número” de fatores fizeram com que eu me aventurasse no jornalismo.

Sou feliz e gosto do que faço, mas, me realizo, mesmo, sendo mãe e estando perto de falas estridentes e balbuciares que ainda não são palavras (famoso bebelês).

Conheci seu pai no auge dos meus 15 anos, filho, e desde então tive a certeza de que ele seria além do amor da minha vida. Ele é o meu parceiro, meu companheiro, meu amor.

Este ano vamos completar 14 anos juntos e o admiro cada dia mais. Seu pai, filho, é o melhor pai que eu conheço. Quando começamos ele era um pouco diferente e um tanto descrente de si, eu acho. Mas, juntos, superamos todas as adversidades. Ele ficou mais forte e amadureceu na medida certa. Costumo pensar que seu pai é uma pessoa iluminada, que todos querem por perto.

Quando você estiver maiorzinho ainda vai ser assim, mas quero dizer que ele acumula grandes amigos nessa vida e todos o querem por perto. Ele tem o dom de agregar. Acredite se quiser, ele agregou até o seu avô e sua avó, que viveram anos de crise e vira e mexe faz o mesmo comigo e a sua Tata, que insiste em encrencar comigo.

Confesso que as vezes dá uma raivinha de ter que “dividir” ele com tanta gente. Mas ao mesmo tempo penso que não permitir que ele ajude, oriente ou faça somente o papel de amigo/conselheiro com as pessoas representa um grande desperdício. Brinco que ele gosta de problema, de resolver pepinos. Mas, não! Seu pai gosta mesmo é de gente, filho, e de ver os que estão ao seu redor felizes. Nosso papel? Permitir e apoiá-lo!

Estamos em uma fase um tanto complicada. Você demonstra a todo momento uma admiração intocável por mim. Exclama várias vezes no dia seu amor e sua admiração. E eu, claro, me encho de alegria. Isso é, sim, demonstração de amor, mas, também, uma coisa chamada complexo de Édipo. É como se você quisesse que só eu e você habitássemos a Terra.

Acontece que temos o seu pai nessa jornada conosco e nós dois nada seríamos sem ele. Não tenho dúvidas que o amor que você sente (por ele) também é maior que o universo, mas, neste momento, você não consegue expressar isso de forma clara. E o seu pai que é um tanto ansioso sofre. Tenho lido sobre o assunto e sei que essa fase vai passar. Até lá, precisamos ter muita calma e paciência.

Seu pai é a pessoa com mais imaginação que conheço e você puxou isso dele. Quando vocês brincam juntos não tem pra ninguém! Não sobra um canto da casa arrumado. Nós amamos alimentar a sua imaginação fértil e deixar você crer que super heróis existem de verdade (eu, particularmente, planto todos os dias que o maior deles é o seu pai, o meu amor). E, quer saber de uma coisa? VOCÊ E EU ACREDITAMOS!

Depois que tive você minha vida ganhou cores. Penei um pouco no começo, pois as noites sem dormir eram enlouquecedoras. Mas superei. Superamos. Eu, num nível tão alto que penso em te dar um irmão ou irmã. Penso que você precisa saber as dores e as delícias que envolvem essa mudança.

Temos falado nesse assunto com você quase que diariamente e esta semana você bradou:

Mamãe, por que está demorando tanto para esse irmão ou irmã chegar?

Fiquei sem resposta. Seu pai anda meio reticente com a ideia. Não porque ele não queira mais um ser memorável em nossa casa. O problema é que ele pensa, filho, e pensa muito (e em tudo). A preocupação dele é não conseguir dar a você e seu irmão(a) a melhor educação, melhor assistência de saúde ou essas coisas que tem um custo bem alto ultimamente.

Mas nada disso faz muita diferença. E sabe por que? Porque vocês já vão ter o melhor dos melhores: o melhor pai e a melhor mãe das galáxias, além do amor mais puro e concreto que existe.

O resto, anjo, é só o resto!

Com amor, Mamãe.