"Cartas para Benício"

Um apanhado de letras, apenas. Que durem para sempre.

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O alface, o queijo, o iPad e a “arma”.

Segunda, 12 de janeiro. Já estamos em 2015.

Cheguei em casa e guardei o alface, o queijo e uma rodela de tomate na geladeira. Mamãe está dieta, filho, o que tem sido uma constante depois que você morou aqui dentro.

Mirei você. Comendo, cheio de fome e elogiando o arroz com feijão com a boca cheia de farofa. Você ama farofa, I-GUAL-ZI-NHO o seu pai. Depois que me deliciei com aquele monte de mato para [tentar] encher a barriga, você, do nada, falou (em tom de súplica, culpa e um tiquinho de arrependimento):

– Mamãe, desculpa! Você me desculpa?

Derretida de tanto amor, mas também em dúvida e já imaginando coisas mirabolantes que você poderia ter cometido na maior inocência [ou não] do mundo, respondi:

– Desculpo meu filho, mas por quê?

Com a voz rouca e mais doce que já passou pelos meus ouvidos, você disse:

– Porque eu vi um vídeo de arma no meu iPad (você adora esse treco). Vi rapidinho, mamãe, mas já tirei porque arma não é legal, né, e eu sei que você e o papai não gostam.

Pronto! De cara eu já queria chorar, porque pela primeira vez ao longo de 3 anos e 10 meses você estava demonstrando o quanto confia em mim e no papai. Demonstrou também cuidado, pois era visível que sua intenção era não nos magoar. E com os seus 98 centímetros já demonstrava um nível de responsabilidade que dificilmente um serzinho do seu tamanho tem.

Fiquei feliz em saber que além de seus pais somos seus amigos, companheiros e cúmplices. Você confia em nós dois. A ponto de pedir desculpas e sentir culpa por fazer algo que podia nos desagradar. Parece que não mas isso tem um significado tão grande para nós, filho.

De fato nós não gostamos de jogos e brincadeiras de armas. O mundo já está tão cruel que incentivar esse tipo de divertimento (se é que podemos falar assim) seria, no nosso ponto de vista, uma leviandade.

Eu e o papai gostamos mesmo de ver você usar a imaginação. E, nossa senhora, como você tem imaginação. Gostamos que você acredite na existência de barcos piratas e tesouros escondidos. Nosso prazer é entrar nesse mundinho ao seu lado. Partilhar as descobertas e, por que não, as frustrações. Estamos juntos!

Com amor,

Mamãe.

PIM

Ele sempre foi o mais parecido comigo. Desde que nasceu, o Pim, como era conhecido na primeira infância, estava ao meu lado pra onde eu ia, situação que o fez carregar trejeitos e manejos que eu sempre vi apenas em mim.

Como foi o primeiro sobrinho (homem) a conviver bem perto de nós (tenho muitos outros sobrinhos mais velhos, mas com nenhum deles eu tive a oportunidade de compartilhar as mesmas experiências), ele acabou recebendo o aconchego, os mimos e as demais vantagens decorrentes da leveza incomparável dessa relação.

A nossa casa era relativamente pequena. Por isso, o quintal do tio Tucano e da tia Cléo viravam verdadeiros playgrounds para nós, que vez ou outra era compartilhado com a Laura (ou Lóra, que é como você a chama). Digo “vez ou outra” considerando a escolha dela (ou sabe-se lá de quem) de ter vindo como menina (meninas não jogavam futebol naquela época).

Virava e mexia ele me acompanhava pelas minhas andanças lá na rua onde morávamos. Eu o carregava a tira colo até mesmo para as festinhas que eu era convidado.

Até pouco tempo atrás, tínhamos um vídeo em que ele aparecia dançando e imitando o Michael Jackson, cantor que, à época, era “o cara” (algum tempo depois ele virou “branco”, afinou o nariz e virou um negócio parecido com um espantalho).

Agora ele cresceu!

Tem poucos dias ele finalizou uma importante fase da sua vida, fechando o ciclo do ensino universitário (na verdade, eu tenho pego no pé dele dizendo que as coisas não são bem assim, haja vista que ele pegou uma “depê”).

Senti um misto de orgulho, alegria e felicidade, se é que esses dois últimos podem ser encarados, interpretados e ou sentidos separadamente.

Embora não tenha ido na Colação, ele compartilhou (nos tempos de hoje, a maioria das pessoas utilizam um “lugar” na internet chamado rede social, onde vidas alheias são compartilhadas, acompanhadas e bisbilhotadas; chama-se Facebook) uma infinidade de imagens que me transportaram para aquele espaço e me fizeram, ainda que de forma virtual, gargalhar a emoção e o sorriso que vinham dele.

Daqui a pouco chega a sua vez.

Reticências

Da última vez que escrevi até agora, nós viajamos para a Disney (foi lindo), para a Bahia, passamos Natal, Ano Novo e, agora, chegamos no Carnaval (amanhã, sexta, inicia o “régabofe” da festa do povo)

Ficamos sem luz, conhecemos o que está sendo considerado o maior episódio de corrupção que o país já viu e, acredite, estamos ameaçados de ficar sem uma única gota de água nas torneiras. Além da falta de planejamento do Governo (em todos os níveis), passamos por uma fase de estiagem (falta de chuva) que não é vista há mais de 80 anos, dizem alguns estudiosos do assunto.

Durante esse tempo, você me amou e “odiou” ao mesmo tempo. Estamos em meio ao que os experts da mente chamam de “Complexo de Édipo”, fazendo com que o seu amor desvairado pela mamãe me coloque de escanteio de um jeito inimaginável.

Você não sabe o quanto eu torço para que essa fase passe logo!

Parabéns para mim!

Eu não lembro muito dos meus aniversários “da infância”, filho. Seu avô era um cara um tanto, digamos assim, diferente, e não curtia muito essa história de festa, muita gente em casa etc. Mas nada me tira da memória o tamanho do meu desejo em fazer um regabofe “nessa data querida”.

Esse desejo era tão grande que, um dia, sem ninguém saber, eu mesmo preparei um festa. Enfrentei um único problema: esqueci de avisar a todos os meus convidados que ele era imaginária, presente apenas nos meus devaneios infantis [e que, graças a Deus, se estendem até hoje].

É isso mesmo. Eu esqueci de me dar conta que aquele embalo todo estava acontecendo só na minha imaginação, fazendo com que as coisas ficassem um pouco fora do eixo.

Eu devia ter uns 9 ou 10 anos. Tinha uma turma grande de amigos na escola que, à torta e à direita, faziam festas de aniversário. Por conta daquele jeitão [diferente] do meu pai eu nem sempre podia estar presente, mas sempre era convidado (que saudades eu tenho daquele “jeito”, filho).

Chamei uma infinidade de gente. “Encomendei” o bolo, “aluguei” a decoração, “comprei” refrigerante, salgados, bexiga e tudo mais. E antes de vir embora pra casa ainda me certifiquei de que os amigos mais chegados da época, como o Ruy e o André, por exemplo, não se esquecessem de, por volta das 20h00, estarem em casa para cantarmos o parabéns.

Quando cheguei em casa dei de cara com a realidade e encarei a rotina de sempre. Pedi e recebi as bênçãos dele e dela. Eu beijava suas mãos, como demonstração de respeito e carinho. Tirei o sapato e a meia e deitei alguns minutos no sofá antes de comer o sanduíche de pão, bife e ovo, que sustentavam o “porte atlético” que eu mantinha naquela época. Abstraí por completo as viagens imaginárias que embarquei durante o dia e segui.

Me esqueci, contudo, que nem todos os meus amigos tinham pais “com jeitão diferente”, e que ser convidado para ir em uma festa e não estar presente [por causa das determinações de “pais diferentes”] era comum só na minha vida, e não na de todos os que me cercavam.

Depois de uma bronca daquelas [as broncas do cara com jeitão “diferente” eram de arrasar o quarteirão], terminei a noite jogando futebol de botão e bebendo refrigerante em uma mesinha de centro que ficava na sala, com tampa de vidro e revestimento em couro sintético preto. Me lembro até do cheiro daquele móvel.

Como você deve imaginar, até passei um pouco de apuro. Mas fiz minha festinha! De presente, pedi que um dia tivesse muitos amigos psicanalistas para me explicarem as razões de tudo aquilo que se passava. Peço, hoje, que Contardo Calligaris, Sergio Zlotnic, Lucas Arantes e cia ltda. paguem a conta.

Obs.: Meu presente de hoje veio embrulhado em papel luminoso, prata. Era uma caneca com os dizeres: “Super Pai”. Você adorou me entregar. Te levamos logo cedo até a porta da escola. Hoje foi o seu primeiro passeio escolar. Curta bastante. E não se esqueça de viver todas as aventuras que a sua imaginação sugerir.

Com amor, Papai.

outubro de 1995 e maio de 2001.

Uma das coisas que mais me incomodam na vida se chama saudade. Seria tão bom se fosse possível viver sem ela! Acredito que você vai passar um bom tempo, ainda, sem conhecer essa traiçoeira inimiga. De toda forma, prepare-se, cara, pois um dia ela chega!

No começo ela sempre se apresenta de forma amena e ofertando uma dor pequena, apreciável e, algumas vezes, até mesmo inspiradora. Depois, filho, ela se revela de um jeito inimaginavelmente dolorido, capaz de arrebatar o mais duro e implacável dos corações.

Há quem se acostume a lidar com ela. São os que a consideram íntima, familiar. Mas o seu poder de redução e enfrentamento é tão grande que, de repente, quando você menos espera, ela te joga no chão, domina sua guarda e arranha sua alma sem dó. Sem piedade. Quando isso acontece, todos ficam sem saída, até mesmo aqueles com quem ela desenvolveu estreitos laços de “amizade”.

O passar dos dias permite que essas batalhas aconteçam de forma esporádica ou sazonal. Mas ela é fiel, cara, e nunca, nunca irá te abandonar.

Para você ter uma noção do seu poder de transformação e guerrilha, ela chega a ser capaz de desenhar na sua mente. É sério! Sem pedir licença, ela introduz na sua cabeça coisas como paisagens, momentos, rostos, cheiros. Consegue até fazer com que você – mesmo estando indiscutivelmente sentado à frente de um computador qualquer e escrevendo um devaneio ou outro – consiga se teletransportar para um antigo caminho que separava sua casa do supermercado, fazendo com que sua cabeça visite novamente a história e passeie por lugares onde o tempo eternizou alguns dos momentos mais felizes da sua existência.

Saudade, filho. Esse é o nome dela.

P.S.: Nós fomos apresentados duas vezes, filho, e eu as cultivo de forma carinhosa e fiel.

Essa tal amizade

Não sei quantas serão as experiências que levarei dessa vida, filho. Em que pese tenha vivido situações que contribuíram com minha evolução – uma delas foi o maravilhoso experimento de ser seu pai –, ainda não tenho a certeza necessária para poder considerar que, depois daqui, existe um novo caminho a percorrer.

Entretanto, minhas idas e vindas (até agora) foram suficientes para poder declarar (com absoluta convicção) que uma das coisas mais interessantes que vivenciei foi um negócio que convencionamos chamar de “amizade”.

Não me refiro àquela relação de proximidade entre duas ou mais pessoas, mantida, na esmagadora maioria dos casos, por uma singela convivência ou pelo simples (e fútil) interesse de “ambas as partes”. Aprendi que a isso se da o nome de “coleguismo”.

Refiro-me a um assunto um tanto quanto diferente, relacionado à estreita cumplicidade vivida por pessoas que simplesmente escolheram, sabe-se lá quando e onde, de forma próxima ou distante, compartilhar as experiências de outro negócio que, aqui entre nós, é conhecido como vida.

Ah, filho, como sou grato por ter passado por aqui e conquistado amigos.

O primeiro deles foi angariado quando eu ainda era pequeno (com 05 ou 06 anos de idade, se não me engano), lá na Benta Pereira, rua em que dei meus primeiros passos e onde hoje moram o Tio “Menas” (você ainda chama o Tio Deumas, meu irmão, de “Menas”) e a Tia Lili.

Ele veio pendurado em um caminhão de mudanças e misturado a um emaranhado de móveis velhos. Para minha alegria, me presenteou com a fidelidade que só os grandes escudeiros da grande ordem da amizade podem carregar.

Com o passar dos anos, a vida me brindou com outras peças raras, com as quais eu criei vínculos indissociáveis da minha própria existência.

Me deu a graça de compartilhar experiências das mais variadas com ursos (bem e mau humorados), anões (parecidos com esses das histórias que te conto antes de dormir), narigudos (e carecas e feios de doer), armênios (com excelentes dotes etílicos – caso do Samuka – e culinários – caso do Paulinho), chicos (que a pretexto de ser um bom exemplar do gênero masculino, chegou a dizer que “manda bem” até pendurado no lustre), marcolas (um dos melhores músicos que conhecerei em toda a minha vida) e outros tantos com quem honrosamente experimento a integridade e inteireza comuns a verdeiros irmãos.

Com cada um deles, filho, brinquei, dancei, briguei, defendi, fui defendido, bati, apanhei, aprendi, ensinei, sorri, chorei, menti, me perdi, enlouqueci, viajei (nos mais variados sentidos que a palavra oferta), trabalhei, ganhei e gastei dinheiro, enfim… vivi!

É por isso, então, que afirmo ser um “dever” seu empreender todos os esforços necessários para não perder as oportunidades que sua permanência por essas bandas oferecerá, para conquistar esses laços. Dedique uma parte significativa da sua vida a angariar esse bem tão precioso, e não meça empenho para cultivar (como bens preciosos) as amizades que ela lhe oferecer.

Elas fazem parte de você, filhão, e representam, por isso, parcelas consideráveis dessa tal evolução!

P.S.: Eu certamente esqueço de citar (nessa brincadeira com os apelidos) um ou outro amigo do peito e de fé. Não me preocupo. Esse esquecimento é facilmente preenchido pelo perdão comum a toda e qualquer boa e verdadeira amizade.

Sim, o seu herói!

Pra mim, jogar futebol nunca foi tarefa fácil. Todo mundo sabe que não tenho a menor aptidão com a redonda.

Na escola eu sempre era o último a ser escolhido. De vez em quando, o capitão do time [de vôlei, apenas] resolvia me escolher algumas posições antes do último “atleta” em campo, motivado pela permanência de pessoas com desempenho pior que o meu ou, claro, considerando o fato de que mesmo sendo um asno, eu conseguiria [pelo menos] devolver a bola sobre a rede que divide o campo.

Para você ter uma noção, eu era um desastre até mesmo no gol, posição que, nas peladas da minha época, eram reservadas para os jogares com, digamos, “pouquíssimo rendimento” (o destaque no “pouquíssimo” é proposital).

Eu não consigo ser escolhido nem mesmo nos jogos de vídeo-game. É só começar a partida e todos veem que, nem com a ajuda de toda a parafernália tecnológica, meu rendimento se distancia do zero (à esquerda).

E é em razão desse “nível técnico”, portanto, que estou absolutamente familiarizado com os mais variados apelidos futebolísticos. Meus ouvidos processam esse tipo de coisa com a mais absoluta naturalidade.

Entretanto, dias atrás você mostrou que, contigo por perto, as coisas deverão ser um pouco diferente.

Na última terça-feira, dia de aula da mamãe (e quando nós reservamos nosso tempo para as peladas na quadra do prédio), bastou um desavisado nas relações de amor entre filho e pai gritar que eu era um “frangueiro” (perto do que já ouvi, isso soou como elogio) pra você tomar a frente e enaltecer meu gingado.

Com seus invejáveis 3 anos de idade, 1 metro e alguma coisa de altura e pouco mais de 16 quilos, esbravejou a certeza de que o ofendido era eu, o seu herói, e que, portanto, para continuarem enaltecendo minhas falhas em campo os ofensores precisariam de muito tutano.

Feliz!

A cara do Lego!

Dia desses você chegou em casa com uma história nova. Agora, você insiste em sentar bem no meio do rack da sala, põe no rosto um óculos velho (e sem lentes) que era meu e, no alto dos seus quase 04 anos, rosto liso, cabelos fartos e pele angelical, discorre com graciosidade (e sem desprezar a “experiência”) sobre como foi seu dia.

As histórias invariavelmente se repetem, mas isso não tira o nosso interesse em sentar à sua frente e ouvir, ouvir e ouvir (e, vez ou outra, filmar). Na última “conversa”, seu pedido era para que um futuro integrante da família não se atrevesse a morder… o rosto dos seus bonecos de lego!

Você é o nosso encanto!

Parabéns

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Naquela última noite nós não dormimos muito bem. Além de ansiosos, a barriga da mamãe – digna de fazer inveja ao mais bem aplicado bebum cervejeiro – já não permitia que gozássemos boas noites de sono.

Durante a manhã toda minha reação foi andar para um lado e para outro. Enquanto “caminhava”, meu pensamento viajava sobre a hora em que iríamos nos conhecer.

Almoçamos arroz, feijão, macaxeira, farofa e pimenta, “em homenagem” à nossa herança nordestina (Deus, salve a Bahia de todos os santos). Na TV, Mazzaropi.

Chegamos no hospital às 17h00. Levando em consideração que a sua chegada havia sido agendada para as 20h30, avalie que o emprego do termo “ansioso” não representa perfumaria.

Em poucos minutos já éramos mais de 60 pessoas, filho (64, para ser preciso). Você precisava ver. Parecia final de Copa do Mundo.

No quarto, um emaranhado de gente misturado com presentes, flores, lembrancinhas, amêndoas e uma garrafa de vinho do Porto, para amenizar a lucidez.

“Nosso pessoal” simplesmente tomou conta do hospital. Na área reservada para as pessoas assistirem os partos, ninguém se mexia. E nenhuma outra família conseguia apreciar o momento que aquele mundaréu de gente à sua espera apreciava (a chegada dos seus).

Quando entrei no centro cirúrgico já estava anestesiado por uma dose cavalar de apreensão, alegria e absoluto desespero. Eu precisava MUITO ver você.

O relógio marcava vinte e duas horas e trinta e oito minutos quando eu ouvi sua voz pela primeira vez (ou melhor, o seu choro, que foi repetido por muitas e muitas noites, até você completar 06 meses, se não me engano).

Eu desabei, cara! Em apenas 30 segundos, assisti um filme com 29 anos de duração. Relembrei, como num passe de mágica, as inúmeras situações que a vida me presenteou (algumas boas, outras nem tanto), com a certeza inabalável de que o final daquela história seria feliz.

Quando a médica te colocou no meu colo, o instinto pulsou forte e exigiu que eu te levantasse bem alto e o expusesse como o maior e melhor troféu que eu poderia ganhar. Era você, cara, o meu filho!

Do lado de fora, por trás do vidro leitoso que separava eu, você e a mamãe daquele povo todo, o silêncio apático que reina em todo e qualquer hospital foi atropelado por um grito forte e caloroso, emanado por um exército de amigos e familiares: “SEJA BEM VINDO, BENÍCIO”. Foi lindo…

De lá pra cá, 1.095 dias se passaram. De vez em quando eu até te conto essa história, mas não consigo mensurar o quanto ela já te significa.

E, a cada minuto, eu continuo me sentido o pai mais feliz dessa vida.

Parabéns!

Mais um presente!

Segunda, 17 de março. 2014.
Hotel Ibis | Colinas, em São José dos Campos.

Nossa, faz tempo que não escrevo. Mais de um mês sem um único registro. Não me censure, filho. Entre a última carta e a que agora te “envio” estão um “sem número” de acontecimentos.

Trabalho atrasado, a reforma do novo escritório e uma infinidade de sono atrasado (resultado da sua façanha inexplicável de acordar todos os dias exatamente às 6h00 da manhã, com o pique parecido com o do Power Ranger) são só o começo da justificativa. Os dias voaram!

Estou em São José dos Campos desde cedo. Cheguei no hotel há pouco e, com um tempinho na manga antes de dormir, faço mais este registro.

Conversamos há algumas horas, por telefone. Depois de falar um emaranhado de coisas que eu não compreendi bem, você frisou, com voz angelical:

– Papai, não esquece meu presente, heim?!

Amanhã estou de volta. Carrego na mala um gigantesco pedaço de saudade e um sem número de novas histórias. Entre uma coisa e outra, o mimo que você pediu.

Com amor, Papai.