"Cartas para Benício"

Um apanhado de letras, apenas. Que durem para sempre.

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Andrea

Sexta, 31 de janeiro. 2014. Último capítulo da novela. Dois mil e catorze anos depois do nascimento de Cristo, o amor de duas pessoas poderá, enfim, ser visto por todos.

Andrea é uns dez centímetros mais alta que eu, simpaticíssima, está sempre bem vestida e vira e mexe usa um casaco de pele sintética, sem se importar se faz frio ou calor.

Nos conhecemos em uma manhã de trabalho lá na sede da Escola, quando ela ainda era na Rangel Pestana, se não me falha a memória.

Como ficou sabendo que eu era o responsável pelo jurídico, não sossegou enquanto não encontrou um espaço na minha agenda. Ela não dava sossego.

Depois de entender um pouco mais da sua história, fiz uma lista com os documentos que eu entendia necessários para distribuir a ação.

Tempos depois, ela adentra minha sala carregando uma pasta repleta de cartas e fotos. São quase todas da sua infância, vivida em Rancharia.

Em uma delas percebo um menino franzino, loirinho, e feliz o suficiente para firmar pose segurando o calção na ponta da barra como se fosse uma saia. Sorrio.

Entre os documentos, uma carta da mãe, revelando sua opção sexual e psicológica desde pequena.

Passado quase um ano, ainda não temos o desfecho da ação, onde o pedido único é para que o Estado permita que Andrea seja ela mesma.

Nos tempos de hoje…

Quarta, 29 de janeiro. Já passamos o primeiro mês de 2014.

No volante, um rapaz que não aparenta ter mais que 20 anos. Ele dirige um carro possante, branco, de uma marca com apenas três letras e com rodas gigantes, em especial quando comparadas às do veículo parado ao lado, que também espera o farol abrir. Os vidros [das quatro portas] estão abertos.

Um pouco à frente, na calçada, uma moça bem jovem, também aparentando estar na flor da idade e com um bebê no colo. A criança chora.

Eu já deveria ter atravessado, mas prefiro ficar na calçada assistindo o que acontece. Ao ouvir/ver o choro, sugiro quieto e calado que seja fome. Reflito.

Não reconheço o som que toca no possante, mas o volume alto, as batidas fortes e o apelo a palavras não muito agradáveis me fazem sugerir que o interprete seja da periferia da baixada santista, use correntes e pulseiras douradas [imitando ouro, talvez], relógio grande e tênis vergonhosamente chamativo.

Percebo o preconceito e me penitencio. Mas não volto atrás…

Com o olhar triste, ela se aproxima. Parece que vai pedir um trocado. A criança agora chora mais alto e mais forte, aparentando dor.

– “Será que a fome é capaz de gerar um desespero tão grande como esse?”, pergunto em silêncio, relevando minha ignorância sobre essa dor.

Ele fecha o vidro. Ignora a cena por completo. O farol abre e ele avança. A moça volta e senta no chão. Vejo uma lágrima escorrer.

Meu coração aperta. Fico meio atordoado, sem saber o que fazer. Na dúvida, choro em silêncio, por dentro. Fecho os olhos e oro. Clamo que os seus tempos não sejam os mesmos de hoje.

Foi!

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Terça-feira, dia 21. 2014. 23h31min.

Com certa frequência, você sai da escola e vai pra casa da Tia Rê. Ela é nossa vizinha e adora ver você entrar no carro e cantarolar no seu idioma (você ainda fala um pouco de bebelês, mas está prestes a assumir o vernáculo como idioma oficial).

Já em casa, exausto, chato, birrento e com sono, você não estava para muita conversa. Depois de um banho forçado, deitou na cama e exigiu o seu banquete: uma mamadeira cheia, doce e quente.

Passamos alguns minutos na sala (poucos, talvez uns 3) conversando sobre alguma coisa supérflua, desinteressante. Quando chegamos no quarto, vimos a cena da foto, que fiz questão de registrar e guardar para a posteridade.

Mais um fragmento seu, guardado a sete chaves no nosso baú de memórias.

Amamos você, filho, com todas as nossas forças.

Papai.

Thiago João, João Thiago ou Thiago e João (ou João e Thiago)?

Segunda, 20 de janeiro. 2014, já.

Suas peripécias são cada dia maiores. Seu gingado com as circunstâncias do dia a dia nos surpreendem muito. É cada coisa que sai da sua cabeça…

Agora você tem dois irmãos (que só você conhece, vale dizer): Thiago e João. A bem da verdade, não sabemos se são dois, mesmo, ou se é apenas um, com um nome diferente, composto (Thiago João. Ou será João Thiago?).

Quando perguntamos você desvia a conversa. Talvez não queira desfazer o laço íntimo (e imaginário) criado com eles. Nem sei se isso seria possível (questionamentos nossos permitirem isso), mas, na dúvida, não arriscarei.

Sua aproximação de nós é uma fortaleza sem igual, filho. Seu desejo de vida, sua graciosidade com o mundo, o espanto e a bem vinda surpresa com o novo continuam sendo nosso maior combustível. Nossa luz, certamente.

Te espero mais tarde, depois da Escola, para o jogo de faz de conta mais real das nossas vidas. Quando chegar, um abraço apertado e um beijo molhado selarão mais esse recado, que não faço a mínima ideia de quando chegará em suas mãos.

Com amor, ansioso, Papai.

Adivugado

Segunda, dia 30. Véspera do “réveillon”. 2013, ainda.

Hoje ficamos juntos o dia todo. Mamãe foi trabalhar. Esse ano, ela ficou responsável pela “comunicação” da festa de réveillon da cidade.

Decidimos passear por algumas bandas, dentre elas as que abrigam o meu escritório. Você é só sorrisos.

Quando entramos, você logo corre pra minha sala, como se já soubesse onde fico e de onde desempenho meu trabalho.

Você brinca, rabisca, corre, pula, quebra uma coisa ou outra, fuça onde não deve fuçar e, do nada, questiona:

– “Papai, aqui que é o lugar dos ‘adivugados’?”

Respondo, mas sem dar muita bola:

– “Sim, filho, é aqui. Somos todos esse negócio aí”.

De volta às suas estripulias, você nem da bola para a resposta. Entretido com os papéis, volta a desenhar/rabiscar algumas folhas de rascunho.

Algum tempo depois, sinto você se aproximando de forma carinhosa. Você me olha, sorri e diz:

– “Papai, eu também quero ser adiguvado, tá?”

Eu choro, te abraço e sorrio. Feliz!

Feliz Ano Novo, filho.

Morangos

Sexta, 20 de dezembro. 2013.

Estamos em 2013, filho, bem perto do Natal. As ruas estão todas iluminadas e cheias de enfeites, prontas para recepcionar a festa do amor e da reflexão. Por onde andamos, o clima é de festa.

Ontem, no fim do dia, fomos comprar seus presentes. Um barco grande, cheio de apetrechos, piratas, um submarino, bonecos, enfim, do jeitinho que você pediu. O Papai Noel leu sua cartinha (rsrs).

Alguns minutos depois, estacionamos o carro em uma padaria perto de casa. Somos surpreendidos pelo sorriso doce e sem graça da Luana. Ela tem aproximadamente 04 anos e brinca feliz no colo da mãe, que há algum tempo não consegue levantar da cadeira de rodas.

Papo vai, papo vem, questionamos o que a menina espera ganhar de Natal:

– “Morangos”, diz ela.
– “Daqueles bem grandes”.

Com a voz, o olhar e o coração embargados, fugimos da conversa. A situação nos coloca em xeque. Ao mesmo tempo que temos a chance de realizar o que ela deseja, somos acometidos pela consciência de que apenas o “nada” está ao nosso alcance.

Entramos e papeamos. Mas nossa atenção estava lá fora, ainda, no olhar doce, meigo e sereno da menina. Minutos depois, passeamos pelo lugar caçando tudo o que pode ser oferecido como “presente”.

Já com alguns brinquedos no colo, ela se despede feliz. Suas mãos estão cheias de morangos.

Feliz Natal, filho.

Febre

Noite de quarta-feira, 11 de dezembro. O ano? 2013, ainda.

Madrugada de febre e choro. Durante a noite você não passou bem. Segundo a mamãe, foi preciso inalação boa parte do tempo (eu não acordei, confesso – rs).

Mais uma fase da “casa nova” está pronta/terminada. Agora temos a sala de jantar completa. Entregarão, disseram, daqui alguns dias. Suas habilidades artísticas já me preocupam…

Ninguém sabe, ainda, sobre a existência deste “lugar”. Por enquanto, sou só eu e você (ou será só eu?). A falta de periodicidade pode sugerir uma certa desídia, mas, acredite, ela não existe. 

Agora você brinca, corre e, vez ou outra, chora. Isso se repete todas as vezes que não atendemos seus mais diversos anseios (brincar com o faqueiro respeitosamente afiado que fica em uma gaveta na varanda, por exemplo).

Estamos em 2013, filho, e a corrupção se escancara nos mais variados veículos de informação (principalmente escritos, com os quais mais me familiarizo). Sinto vergonha e orgulho. Sei que estamos conduzindo seus passos para longe disso.

Temos nos preocupado em, ao invés de prepara-lo como um erudito frio, ou um sábio seco, transforma-lo em um homem de pensamento e ação (Olavo Bilac). Deu certo, né?

Vou correr e te apertar. Espero que lembre.

Com amor, papai.

Madiba

Em tempo, o mundo se despede do mestre Madiba, filho, também conhecido como Mandela (e sobre quem ainda conversaremos bastante). Aos 95 anos (quase a idade do “Vô Biza”), cansou e se foi.

Na imprensa, inúmeras manifestações de carinho. Ele foi um gênio, Preto, você precisava ter visto. Entregou praticamente 30 anos (quase a idade do Papai) da sua vida para defender a igualdade.

Em um jornal ou outro, ainda preferem dar ênfase ‘prum’ tal de Dirceu!

Kairós

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Tarde de sexta-feira, 06 de dezembro. 2013.

Dia longo, ontem. Muito trabalho para o papai e para a mamãe. Aqui no escritório, Recursos, Mandados de Segurança e outras coisas mais. Lá no trabalho dela, dedicação exclusiva, em especial por conta do sorteio para escolha dos grupos que disputarão a copa do mundo, que acontece no ano que vem.

Olha que bacana: você nem chegou ao mundo e já terá, de presente, uma copa do mundo (no seu país) no currículo. Vamos aproveitar muito, você vai ver.

No fim do dia, chuva e vento forte para limpar e varrer o cansaço. Chegando em casa e vejo a mamãe aflita, com água em todos os cantos da cozinha. Penso que ela ela ficou “puta” da vida, considerando que fui eu quem esqueceu a janela aberta. Hoje, na hora do almoço, arrumo um tempinho para curiar o celular. Uma mensagem:

Ontem foi um dia diferente. E mais uma vez, tive certeza do quanto meu coração transborda de amor pelo meu Benício. Podem dizer o que quiser, mesmo, mas mimar nossa cria é a melhor coisa do mundo.

Cheguei em casa por volta das 19h, carregando mochila da escola, sacolas, brinquedos, bolsa, envelopes enviados pela escola e, de rebarba, o Benício, que veio pendurado no pescoço. Aquela cena que só quem é mãe sabe. Estava realmente cansada. O dia foi puxado.

Ao entrar, me deparei com a cozinha alagada (a janela estava aberta na hora do temporal) e minha sobrinha linda tentando minimizar o estrago!

Benício estava tão ansioso para abrir aqueles envelopes que nem viu a prima. Foi correndo para o sofá e começou a mexer nos seus “trabalhos”.

E na minha cabeça, nada além do dever de arrumar aquela bagunça deixada pela água. Enquanto fazia isso, Benício me puxava para mostrar tudo que trouxera da escola: um boneco de neve feito de EVA, desenhos, livros e muitas outras coisas. Aflita com aquela bagunça, não dei muita atenção.

E de repente ele gritou: Mamãe óia isso aquiiii!

Larguei, parei tudo.

Tirei o sapato, nos jogamos no tapete da sala e comecei a ver tudo detalhadamente, comentando. Ele vibrava! Seu sorriso era contagiante quando eu perguntava o autor daquelas “fantasias”.

Eu afirmava e dava um beijo bem apertado naquela bochecha gorda, a cada dois segundos. 

O papai chegou e foi uma festa! Benício se empenhou ainda mais para mostrar todas as suas obras de arte. O pai, como eu, chegou e ficou preocupado com a cozinha alagada, mas em minutos foi tomado pela alegria do nosso príncipe. Ficamos ali, os três curtindo.

No meio de todos aqueles papéis, tinha também um CD com imagens do Benício na escola. Assistimos.

Tive noção ali, naquele momento, que meu bebê está crescendo, e que realmente fiz a escolha certa ao colocá-lo na escola esse ano. A evolução dele foi gigantesca.

E como ele ama os amiguinhos e a tão querida Prô Dri. É amor de verdade.

(…)

Chorei, chorei muito! Poque meu coração estava cheio, transbordando de amor. Estava muito feliz ao ver que ele é feliz!

Ele chorou, e sem saber porquê. Estava emocionado, mas ainda não sabe o que é isso. Baixinho, ele disse: Mamãe, estou com medo!

E eu expliquei: Filho amado, isso não é medo. É emoção, amor e eu e o papai estamos aqui com você, pra sempre! E a gente te ama muito. Não precisa chorar, digo eu aos prantos, deixando ele sem entender mais nada (kkkkk). Terminamos de ver as fotos, iniciamos o ritual do sono e ele dormiu como um anjo.

Sem dúvida, mais um dia especial.

Ah… a cozinha alagada?!
Que se dane aquilo tudo!

Com amor, Papai.

Vai e vem!

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Tarde de 02 de dezembro. 2013.

Não nos vemos há algumas horas. A saudade, contudo, já grita e esperneia. Amanhã viajo. Compromisso de trabalho. Na bagagem, a lembrança do final de semana, em que curtimos, passeamos, cantamos, pulamos, corremos, comemos e vibramos. Levo na mala o seu sorrio. Ele me alimenta.

Volto rápido. Quero te ver e te abraçar.
Quero estar perto de você.

Te amo, filho.
Com amor, Papai.