Parabéns para mim!

por dinovanoliveira

Eu não lembro muito dos meus aniversários “da infância”, filho. Seu avô era um cara um tanto, digamos assim, diferente, e não curtia muito essa história de festa, muita gente em casa etc. Mas nada me tira da memória o tamanho do meu desejo em fazer um regabofe “nessa data querida”.

Esse desejo era tão grande que, um dia, sem ninguém saber, eu mesmo preparei um festa. Enfrentei um único problema: esqueci de avisar a todos os meus convidados que ele era imaginária, presente apenas nos meus devaneios infantis [e que, graças a Deus, se estendem até hoje].

É isso mesmo. Eu esqueci de me dar conta que aquele embalo todo estava acontecendo só na minha imaginação, fazendo com que as coisas ficassem um pouco fora do eixo.

Eu devia ter uns 9 ou 10 anos. Tinha uma turma grande de amigos na escola que, à torta e à direita, faziam festas de aniversário. Por conta daquele jeitão [diferente] do meu pai eu nem sempre podia estar presente, mas sempre era convidado (que saudades eu tenho daquele “jeito”, filho).

Chamei uma infinidade de gente. “Encomendei” o bolo, “aluguei” a decoração, “comprei” refrigerante, salgados, bexiga e tudo mais. E antes de vir embora pra casa ainda me certifiquei de que os amigos mais chegados da época, como o Ruy e o André, por exemplo, não se esquecessem de, por volta das 20h00, estarem em casa para cantarmos o parabéns.

Quando cheguei em casa dei de cara com a realidade e encarei a rotina de sempre. Pedi e recebi as bênçãos dele e dela. Eu beijava suas mãos, como demonstração de respeito e carinho. Tirei o sapato e a meia e deitei alguns minutos no sofá antes de comer o sanduíche de pão, bife e ovo, que sustentavam o “porte atlético” que eu mantinha naquela época. Abstraí por completo as viagens imaginárias que embarquei durante o dia e segui.

Me esqueci, contudo, que nem todos os meus amigos tinham pais “com jeitão diferente”, e que ser convidado para ir em uma festa e não estar presente [por causa das determinações de “pais diferentes”] era comum só na minha vida, e não na de todos os que me cercavam.

Depois de uma bronca daquelas [as broncas do cara com jeitão “diferente” eram de arrasar o quarteirão], terminei a noite jogando futebol de botão e bebendo refrigerante em uma mesinha de centro que ficava na sala, com tampa de vidro e revestimento em couro sintético preto. Me lembro até do cheiro daquele móvel.

Como você deve imaginar, até passei um pouco de apuro. Mas fiz minha festinha! De presente, pedi que um dia tivesse muitos amigos psicanalistas para me explicarem as razões de tudo aquilo que se passava. Peço, hoje, que Contardo Calligaris, Sergio Zlotnic, Lucas Arantes e cia ltda. paguem a conta.

Obs.: Meu presente de hoje veio embrulhado em papel luminoso, prata. Era uma caneca com os dizeres: “Super Pai”. Você adorou me entregar. Te levamos logo cedo até a porta da escola. Hoje foi o seu primeiro passeio escolar. Curta bastante. E não se esqueça de viver todas as aventuras que a sua imaginação sugerir.

Com amor, Papai.